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Pescador da Enseada - Rainer Pimstein

30/10/2020




Pescador da Enseada

Por Rainer Pimstein *
Às 5h da manhã um velho pescador saía de casa carregado com seus apetrechos, era sua rotina em dias normais, pois em dias de tempestade, ele consertava as redes, cuidava da horta e dos mamoeiros, tamarindos e acácias que havia plantado no quintal de sua casa.

Ao amanhecer, só de olhar as estrelas, sabia como seria o tempo durante o dia.

Depois de colocar no barco a rede remendada, a garrafa de água, os flutuadores e uma linha com ganchos, empurrou o bote para fora da praia em direção ao mar, depois de um salto calculado, entrou no barco e instintivamente agarrou os remos e sentiu o prazer da música produzida pelos remos ao roçarem nas ondas.

Isso lhe causou uma sensação de liberdade, onde tudo era uma nova aventura, que ele conduzia com base em sua experiência de muitos anos. 

Sua família era uma filha de 40 anos, cujo marido, alcoólatra, saiu para beber e se perdeu por 20 dias e teve que ser procurado; quando voltou, bateu nela e da última vez que saiu, não o procuro mais, para que não continuasse sofrendo as consequências da embriaguez. Ele deixou 2 filhas, uma de 12 e a outra de 13 anos. 

A mãe das meninas não tinha emprego formal, mas se defendia consertando roupas usadas, com tesoura de alfaiate e uma velha máquina de costura a pedal.

A própria esposa do pescador morreu faziam 20 anos de leucemia.

As netas passaram a assistir novelas na televisão e disseram que na situação atual seriam empresárias ou atrizes. Eles desprezavam a profissão de pescador. Diziam que seu futuro na enseada era casar-se com um pescador, encher-se de filhos e se escravizar, no mesmo lugar, pelo resto da vida. Que não queriam essa vida, queriam aproveitá-la à sua maneira, queriam viajar, conhecer, dançar.

Para concretizar essas ilusões, eles pediram dinheiro ao avô para pagar um salão de beleza na cidade grande e ficaram muito zangados porque ele não lhes deu dinheiro para esse fim.

O que mais as interessava era sair daquele marasma e flertaram com o motorista do ônibus que servia a cidade, pensando que ele ia tirá-las dali, ignorando as advertências da mãe, que as havia avisado que : Com aquele joguinho, o que conseguirão será uma boa barriga.

Enquanto isso, o avô, em uma mesinha, na parte mais escondida do pátio, fazia botes de madeira que colocava em pequenas garrafas, que depois eram vendidas aos turistas.

Pouco antes das eleições, um pesquisador apareceu na casa. Em casa estavam apenas as duas meninas, que, conduziram o homem para dentro, o sentaram na sala e lhe ofereceram uma xícara de café, pois ele havia dito que a pesquisa duraria cerca de uma hora.

As perguntas e respostas da pesquisa foram:
1.- Quantas pessoas vivem nesta casa? R = 3 pessoas, nossa mãe e nós duas.
2.- E onde está seu pai? R = meu pai foi beber e minha mãe não procurou mais por ele, porque ele bateu nela.
3.- Profissão ou atividade de seu pai? R = Trabalhava como pedreiro, mas não ia bem, porque o que ganhava era para beber e não trazia nada para casa.
4.- Há quanto tempo seu pai se foi? R = Cerca de 5 anos atrás.
5.- Profissão ou atividade de sua mãe? R = Costureira, conserta roupa; agora ela está entregando um vestido.
6.- Quanto você acha que ganha sua mãe? R = Ela ganha pouco, porque ela arruma a roupa a crédito e eles demoram para pagar tudo.
7.- Quantos filhos e / ou filhas estudam? R = Nós duas, mas terminamos.
8.- Nível de estudo alcançado até hoje? R = Chegamos à 3ª série, ou continuamos estudando ou trabalhamos, vamos ver o que acontece
9.- Qual curso você gostaria de estudar? R = Queremos ser atrizes.
10.- Quem é o dono desta casa? R = Nosso avô.
11.- Onde mora o dono desta casa? R = Aqui na casa.
12.- E a avó? R = vovó Claudina, faleceu há muito tempo.

- Porque vocês negaram seu avô, quando perguntei sobre os habitantes da casa. - Como ele quase não fica em casa, sai para pescar por volta das 5 e volta entre 9 e 11, depois de distribuir o peixe, bota o que sobra para secar no quintal, ele mesmo prepara o almoço e volta para casa para dormir um pouco.

- Bem, se não parece importante para você, continuaremos com a pesquisa.

12.- Profissão ou atividade do dono da casa? R = Ele é pescador; hoje ele ainda não voltou da pesca, vem logo.
13.- Comida da Família? R = Principalmente peixes.
14.- Origem da comida? R = Avô, todo dia que vai pescar, deixa 2 peixes na cozinha.

- Até aqui foram as perguntas sobre pessoas, agora devo revisar a casa para detalhar os aspectos de construção da casa e sua condição atual. Alguns de vocês podem me acompanhar até os quartos, pois devo medir o tamanho deles, as janelas, os armários, a estrutura da casa, disse.

Nisso chegou a Mãe ficando surpresa de encontrar suas filhas com um estranho num dos quartos. Perguntou - Quem e o senhor e a quem representa; recebendo como resposta o seguinte: Não se preocupe senhora que somos pesquisadores do Ministerio da Habitação e o objetivo da pesquisa é fazer melhorias nas casas.
- O senhor deve ser outro desses políticos sem vergonha que vem prometer antes das eleiçõe todo tipo de maravilhas e depois que são eleitos, esquecem completamente o povo que lhes deu o voto.
- Nossas casas tem problemas que se alastram por muitos anos, um dos problemas é que Ada vez chega menos água nas casas, outro problema são os tetos que tem telhas quebradas e em muitas chove dentro, nem mencionr o problema do transporte dos rapazes que estudam fora, que são todos porque aqui não tem escola, tem transporte de ida e na volta devem voltar a PE, demoram hora e meia caminhando e se chover chegam ensopados, muitos ficam resfriados com esa história. 
Os fatos contados pela mãe das garotas eram muito reais e não podiam sumir como as palavras ao vento.
O pesquisador viu que a coisa estava ficando preta e perante o temor de ser expulso violentamente da casa, argumentou: A senhora tem toda a razão porem leve em conta que nos somos somente funcionários enviados a fazer as perguntas, porém conhecendo a situação das moradias e as necessidades das pessoas, o orçamento pode ser distribuído e posso assegurar que tem comunidades onde estão consertando as moradias e isso já é um progresso.
- É um avanço mas vem com um orçamento baixo e atrasado, essas campanhas são feitas para dizer que o atual governo cumpre, mas em 5 anos de governo, o que eles fazem é engordar o bolso e o dos seus empresários e para os necessitados não dão nada . Administram como querem .

Nesse ínterim, o avô chegou com seu peixe e talhar no ombro, deixou os 2 peixes no freezer da cozinha e seguiu para o pátio para guardar o resto.

O entrevistador acabou de medir os cômodos e disse que tinha que fazer perguntas à dona da casa, a mãe das meninas, disse: passa por aqui e você vai encontrá-lo fazendo bagatelas no fundo do quintal.

Quando chegou à presença do pescador, os dois se olharam como conhecidos, apertaram as mãos mesmo sem adivinhar a identidade de cada um.

O pescador havia acendido o fogão e estava preparando um peixe, com farinha de ovo, sal e um pouco de cominho, para depois jogar no azeite quente.

O pesquisador disse a ele: Eu sou do Ministério da Habitação e preciso fazer algumas perguntas. - Não se apresse, eu comerei o meu e também vou lhe fazer algumas perguntas, mas sente-se enquanto acabo de fritar o peixe, que para você pode ser o almoço, mas para mim é café da manhã, então você me acompanha, porque o maior parte do tempo eu como sozinho. - Sim homem, eu te acompanho, foram as palavras do pesquisador.

O aroma de peixe frito foi inundando o local, o pescador serviu 2 pratos com abundante peixe e tomate, dizendo ao pesquisador: chegue perto da mesa, se você gosta de pimenta, tem naquela garrafa.

Os 2 homens se miraram e como nenhum dos dois disse nada, começaram a comer o delicioso peixe. Mas a curiosidade era mais forte do que a vontade de comer. O pescador, depois de olhar muito para ele, disse: Você deve ser da família do "padre Jiménez", porque ele tem uma semelhança que ninguém consegue disfarçar.

O pesquisador afirmou: Pode ser, mas fale-me do "padre Jiménez". O pescador, sorrindo, disse-lhe: Aquele não era padre de igreja, chamavam-no assim porque era meio calvo e cortava o cabelo que parecia ter um ninho de passarinho na cabeça; Nem era tão santo, era um camarada pescador, como eu, trabalhávamos na pesca do atum e do atum, quando chegavam as pescarias espanholas e japonesas.

Isso foi no porto de Valparaíso, em 1956. Depois me casei e vim para esta enseada. Ele também se casou e continuou morando em Valparaíso, eu sabia disso porque as duas se conheciam. Você não vai acreditar nas aventuras que vivemos com o "padre", um dia embarcamos em um barco pesqueiro alemão por 3 meses, depois de velejar pescando por 2 meses chegamos ao porto de Hamburgo na Alemanha. É um dos maiores portos do mundo, de lá é distribuído para América, Europa, Ásia e vice-versa.

Depois de descarregarmos as 30 toneladas de pescado, o capitão nos disse: vocês têm liberdade até amanhã às 8 horas da noite, tragam o passaporte e tomem cuidado para não se meterem em encrenca.

Depois de ficarmos livres, o que você acha que foi a primeira coisa que fizemos? Fomos tomar cerveja, que lá é muito boa. Depois caímos num bar com muitas mulheres, a maioria gringas de cabelos louros, procurávamos as mais morenas, porque falavam espanhol e contavam suas histórias, havia da República Dominicana, Suriname, Colômbia e até chilenas.

Passamos boa parte da noite com aquelas mulheres, dançando, bebendo e curtindo com elas. No dia seguinte acordamos em um pequeno hotel, já eram 11 horas. Tomamos banho e fomos com toda a pompa que nosso traje de marinheiro nos deu, almoçar em um elegante restaurante.

Lá ficamos sabendo que a Copa da Europa estava sendo definida naquela tarde, no estádio local, nada mais nada menos que o Bayer Munique da Alemanha contra o Arsenal da Inglaterra. Naquela tarde fomos como dois cavalheiros para curtir aquele jogo, não paramos de comer linguiça e beber cerveja, foi muito disputado, enfim venceram os alemães, com um pênalti duvidoso, que o árbitro cobrou, sob o estardalhaço de todo o estádio; as 19h, nos aproximamos do cais e chegamos ao navio um pouco antes das 20h.

Quanto mais o pescador contava, mais os olhos do pesquisador se abriam, até que ele se empolgou, caiu uma lágrima e ele disse: Sim, era meu pai; Ele estava contando a mesma história. Ele teve 3 filhos com minha mãe, eu era o mais velho e moro em Valparaíso. Meu pai morou conosco até 1960; então ele decidiu ir pescar caranguejos-aranha no Ártico, mas o navio naufragou perto do Alasca e ali acabou o "padre Jiménez".

A empresa pesqueira disse que outro barco que estava perto tinha recolhido alguns cadáveres, que se minha mãe queria que poderiam trazer os restos mortais, ela disse que não trouxeram nada, que ela o queria vivo, por isso deram-lhe uma pequena pensão todos os meses.

- Você percebe como o mundo é pequeno, disse o pescador; Você já me disse, onde seu pai foi parar, agora me diga: sua mãe está viva?- Sim, respondeu o entrevistador, ela faz o mesmo que a sua filha, costura roupas para os vizinhos do bairro. 

- Diga a ele que você conheceu Israel Febres, amigo do "padre" e marido de Claudina, sua velha amiga. Leve para ela este prato de porcelana que nos deram em Lisboa.

O pesquisador disse: Não falamos muito sobre a casa, mas eu preencho o que for preciso. Ambos se levantaram e se deram um longo abraço, como de pai para filho, e juraram se encontrar novamente.

* Rainer Pimstein: Engenheiro forestal, exprofessor da Universidade De Los Llanos, Venezuela
Crédito Pintura - El Viejo y el Mar - Mala Tinta



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