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Que sorte para a desgraça! - Guillermo Piernes

13/02/2021 00:00




Que sorte para a desgraça! 

Por Guillermo Piernes **
Que sorte para a desgraça! Assim um cômico sul-americano definia as suas andanças.

Eu lembrei dele quando em 1986, na qualidade de representante da OEA no Brasil eu tive de confrontar publica e quase simultaneamente aos embaixadores dos Estados Unidos e de Cuba.

Também a frase do cômico em 1990 foi lembrada quando defendi firmemente a entrada do primeiro soviético ao Paraguai, quando não havia relações diplomáticas entre o pais sulamericano e a URSS.

Após servir em Washington como Diretor de Informação Publica e porta-voz do Secretario Geral da OEA, João Clemente Baena Soares, fui enviado a Brasília como representante do organismo regional, com status de chefe de missão diplomática. Pensei que seria uma missão menos delicada da cumprida em Washington. Não!

A missão era complexa por ter de dar atenção aos 80 projetos de cooperação técnica e tinha um especial desafio: A missão era realizada no país do Secretario Geral trabalhando muito perto de Itamaraty, a instituição onde Baena Soares construiu a sua brilhante carreira, de terceiro secretário a ministro interino das Relações Exteriores do Brasil. 

Já tinha avisado aos meus os interlocutores em Brasília que a minha lealdade a Baena Soares era total e que o defenderia das intrigas palacianas - frequentes em todo centro de poder - e de toda atitude que buscasse menoscabar o seu brilhante tarefa como Secretario Geral da OEA competente, integro e independente.

Tudo ia razoavelmente tranquilo até que chegou o novo embaixador dos Estados Unidos a Brasília, o experiente diplomata de carreira Harry Shlaudeman.

Como todo diplomata fogueado sabia que nada controverso poderia ser dito sobre as relações bilaterais até depois de apresentar credenciais ao Presidente da República. Assim o fez o veterano diplomata no aeroporto de Brasília ao ser entrevistado pelos jornalistas. Porem ao ser interrogado sobre as relações hemisféricas, o embaixador americano disse que Estados Unidos considerava que na OEA não eram atendidos os interesses do seu pais.  

No dia seguinte conversei com o colunista diplomático do Correio Brasiliense, Manuel Mendes, e declarei que o diplomata dos Estados Unidos tinha razão: A OEA e o seu Secretário Geral não atendiam os interesses nacionais norteamericanos e seguiam apenas as diretrizes das decisões emanadas dos consensos ou votações  entre todos oss países membros. O clima ficou tenso.

Semanas depois, numa recepção tive uma conversa com um assessor do embaixador quando manifestei que lamentava os inconvenientes possivelmente causados porem era o meu dever profissional defender a OEA e o seu Secretário Geral. O recado chegou ao veterano diplomata. 

Dias depois fui convidado a tomar um café com Shlaudeman na embaixada. Foi uma conversa agradável com o embaixador que tinha chefiado anteriormente as embaixadas na Venezuela, Peru e Argentina. Como deter as fofocas, perguntei e eu mesmo respondi: "Uma imagem vale por mil palavras". O assistente do embaixador chamou o fotografo. Ao dia seguinte o mesmo Correio Brasiliense publicava a foto do Shlaudeman e eu sorridentes com as xícaras de café na mão. O episodio ficava ali encerrado.  

Os raios podem cair sim no mesmo lugar. Dois meses depois de acertado o tema com Schlaudeman chegou a Brasília o primeiro embaixador de Cuba depois de reatamento de relações, cortadas durante o regime militar. Era Jorge Bolaños, um dos seis vice-ministros de Relações Exteriores do regime de Fidel Castro e ex-embaixador cubano na Polônia, Checoslovaquia e Reino Unido.

No aeroporto do DF novamente os jornalistas entrevistando um embaixador cauteloso com as declarações sobre as relações bilaterais. Houve uma pergunta sobre a OEA e um observação dura do Bolaños sobre o suposto alinhamento da organização regional aos interesses americanos.

A história repetiu-se. Chamei ao colunista Mendes para dizer que desejava sucesso ao novo embaixador cubano porem que era evidente que os longos anos da suspensão de Cuba na OEA tinham tornado obsoletos seus conceitos sobre a OEA, com um diplomata brasileiro como Secretário Geral. Assim foi publicado.

Dias depois numa recepção na embaixada do México, o anfitrião me chamou para ser apresentado a Bolaños. O cubano levantou seu braços e teatralmente clamou: "Hermano, juro que en Brasília nunca mas pronunciaré la palabra OEA". Estreitamos nossas mãos com força. Bebemos um longo drinque, conversamos e rimos muito. O assunto foi encerrado para sempre.

Em 1990, eu seguia como Representante da OEA no Brasil e nesse ano Paraguai e a União Sovietica não mantinham relações diplomáticas, cortadas durante o regime do general Alfredo Stroessner. Nesse 1990 a OEA tinha marcado a sua Assembleia Geral em Assunção.

O profissional soviético Vladimir Golenkov era o correspondente da Tass em Brasília e queria fazer a cobertura da reunião do organismo regional. Como representante da OEA no Brasil informei ao embaixador do Paraguai do interesse que ele recebesse o visto. Perante a sua dúvida e razões insisti veementemente argumentando que a reunião da OEA foi marcada no Paraguai porem esse país tinha a obrigação de conceder o visto para jornalistas profissionais interessados na cobertura da reunião do organismo regional.

Finalmente, após alguma canseira, Golenkov recebeu um visto de turista e chegou a Assunção onde recebeu a credencial de imprensa da assembleia da OEA e fez a cobertura da reunião, porem ele foi o astro no âmbito do encontro porque a imprensa do Paraguai deu o maior destaque para a chegada do primeiro soviético no país.

Conclui a minha missão como representante da OEA depois de participar na Rio-92, quando assistí ao fortalecimento da cooperação internacional para proteger o Planeta, um antecedente do Acordo de París, a principal iniciativa global para freiar um previsível desastre ambiental.  

Ao reunir estas lembranças profissionais que reflitem fielmente o acontecido aproveito para afirmar que tive a fortuna de trabalhar e lidar com grandes profissionais ao longo da vida.  
** Guillermo Piernes: Jornalista, escritor e palestrante
Foto de João Clemente Baena Soares, ladeado por Mario Garófalo e Guilermo Piernes (esq)



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