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Mais do que Guru - Márcio Pinheiro

21/04/2021 00:00




Mais do que Guru 

Por Márcio Pinheiro **

­Faça o teste: Allen Ginsberg, Carlos Santana, Abbie Hoffman, Carlos Castañeda, Timothy Leary, Jack Kerouac, Ravi Shankar, Alan Watts, Jimi Hendrix. Essas e muitas outras pessoas - ícones da cultura pop do final dos anos 60 e do começo dos anos 70 - entraram na cabeça de muita gente aqui no Brasil através de Luiz Carlos Maciel. 

Era ele, à frente da coluna Underground, no semanário Pasquim, quem antenava o público brasileiro com o que estava acontecendo no planeta. Pelos serviços prestados, Maciel ganhou um apelido, o Guru da Contracultura, que, com o tempo, se transformou em rótulo. Mais tarde ele iria rejeitar. "Não aceito o guru. Não tenho guru nem sou guru de ninguém. Na minha filosofia, cada um tem de ser seu próprio guru", me disse o próprio Maciel numa conversa que tivemos num café do Moinhos de Vento no começo do milênio.

Guru ou não, Maciel também escreveu um manifesto, resumindo boa parte das experiências que teve naquela época. As Quatro Estações, publicado em 2001, foi um exercício memorialístico e um balanço histórico do que havia sido produzido culturalmente no Brasil nas décadas de 60, 70, 80 e 90. Uma maneira de, em tempos de crise, se voltar para o passado para tentar compreender o presente e vislumbrar o que poderia acontecer no futuro.

A compreensão destes três tempos sempre foi uma obsessão. Gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em março de 1938, Maciel, com o nome tirado de uma homenagem ao líder comunista Luís Carlos Prestes, estudou num tradicional colégio jesuíta da capital gaúcha antes de se formar em Filosofia pela universidade federal aos 20 anos. Ligado a saraus poéticos e grupos teatrais da cidade, Maciel, no final dos anos 50, fez uma excursão pelo nordeste do país com uma escala em Salvador. Nunca mais voltaria para Porto Alegre, cidade que - anos mais tarde - ele confessaria sua estranha relação. 

"É indescritível. Tenho um texto, em As Quatro Estações, que fala de Porto Alegre, a partir de um sonho recorrente que eu tinha. Foi a cidade da minha adolescência. Descobri o teatro, a literatura e a filosofia no fim dos 50. Fiz parte dos grupos teatrais Clube de Teatro, Teatro Universitário e Teatro de Equipe. Participei do grupo Quixote, no qual publiquei meus poemas. Descobri e li Sartre e Samuel Beckett. Cursei a Faculdade de Filosofia. Além disso, era sócio do Clube de Cinema e me interessava por tudo que acontecia culturalmente"

Nesta mesma conversa, Maciel lembrou que entre os anseios de sua geração um deles é que o Brasil tivesse uma arte de ponta, uma cultura avançada, à altura dos países do Primeiro Mundo. Havia um grande interesse pela arte de vanguarda e a admiração por Drummond, João Cabral e Samuel Beckett, de quem Maciel dirigiu uma montagem de Esperando Godot.

Todo esse vínculo com a capital gaúcha seria atropelado e superado por novas emoções. Em Salvador, Maciel pegaria o auge da Renascença baiana patrocinada pelo reitor Edgard Santos e ficaria próximo de jovens que começavam a agitar a vida cultural da cidade, como Caetano Veloso, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Gil Soares e ? especialmente ? Glauber Rocha. Com Glauber, Maciel teria a noção de que suas ambições teatrais poderiam ser acrescidas por experiências cinematográficas, ampliando suas áreas de atuação. 

Desse convívio surgiria o convite para que ele estreasse à frente das câmeras como ator em Cruz na Praça, curta-metragem dirigido por Glauber. Mais como experiência do que proposta profissional, a atuação de Maciel não teve grande repercussão e na virada da década seguinte ? a década que lhe marcaria para sempre com um de seus principais analistas e memorialistas ? Maciel estaria no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, como bolsista da Fundação Rockefeller, para estudar direção teatral e produção de roteiros.

Da experiência teatral, Maciel passaria para o jornalismo. Convidado por Tarso de Castro, que o conhecia dos tempos de Porto Alegre, ele foi chamado a colaborar no semanário Panfleto. Como veio o golpe de 64 e o Panfleto ? que era ligado aos brizolistas ? foi empastelado, Maciel ficaria circulando pelas redações do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, Manchete) até Tarso, então um dos criadores do Pasquim, chamá-lo novamente para ser um dos primeiros colaboradores do novo jornal, ao lado de Millôr Fernandes, Paulo Francis, Ziraldo, Fortuna, Henfil, Jaguar e Sérgio Cabral.

As duas páginas que Maciel editava fizeram dele um nome conhecido e batiam recordes de cartas dos leitores. A experiência seria intensa porém curta. Com a briga e a saída de Tarso do comando, Maciel acompanharia o amigo. Atravessaria os anos 70 dividindo-se em múltiplas atividades. De imediato estaria à frente de Flor do Mal, jornal contracultural fundado por ele em 1971, ao lado dos poetas Tite de Lemos, Torquato Mendonça e Rogério Duarte. 

Logo depois, Maciel se vincularia a uma nova pequena revolução na imprensa nacional, editando uma versão brasileira (e pirata) da revista Rolling Stone. Pelos anos seguintes, Maciel também seria roteirista da Rede Globo e autor de livros "Nova Consciência, Negócio Seguinte: e A Morte Organizada" quase sempre abordando temas e experiências recolhidas do tempo em que editava Underground.

Nestes livros, alguns textos e opiniões ficariam datados porém sem afetar a essência do pensamento libertário e inovador do autor. Maciel não renegaria seus escritos, classificando-os como sensíveis, inteligentes e frutos de uma observação sensata da época. Destacaria como ponto alto As Quatro Estações, que destacaria como sendo a memória totalmente subjetiva e o balanço de uma experiência pessoal neste tempo que lhe foi dado viver.

Maciel atravessaria as décadas de 80 e 90 mantendo-se como contratado da Rede Globo, dirigindo shows - o mais famoso deles foi com Gal Costa, em 1984 - e escrevendo livros sob encomenda como os dedicados à atriz Dorinha Duval e ao jornalista, produtor e compositor Ronaldo Bôscoli. Também publicaria outro livro de memórias, Geração em Transe, em que lembrava de fatos de sua vida a partir da convivência ao lado de três personagens: Caetano Veloso, Glauber Rocha e José Celso Martinez Corrêa.

Nos últimos anos, Luiz Carlos Maciel passou a ter uma ativa participação com postagens no Facebook, comentando assuntos da política brasileira contemporânea, revisitando temas que sempre lhe interessaram (beats, jazz, cinema, teatro, gatos) e rememorando antigas histórias do Pasquim. No último dia de 2015, fez uma postagem no Facebook ressaltando a predileção de seus leitores pelos seus livros mais antigos mas afirmava que na sua opinião o melhor era o mais recente, O Sol da Liberdade, publicado por uma pequena editora em 2014. Maciel encerrava a postagem explicando que o livro era difícil de ser encontrado nas livrarias e que os interessados não deveriam desanimar, podendo adquiri-los através de uma pessoa que ele indicava.

Seis meses antes, Maciel havia sido ainda mais explícito ao expor as dificuldades financeiras que atravessava. Em uma postagem de junho, com o título "Maciel quer trabalho", em letras maiúsculas, ele se confessava "um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito" e usava esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro?. 

Apelando a amigos e desconhecidos, Maciel contava que estava desempregado há quase um ano e dizia precisar urgentemente de um trabalho que lhe desse ?uma grana capaz de aliviar este verdadeiro sufoco?. Por fim, Maciel fazia um pequeno currículo (Sei ler e escrever, sei dar aulas, já fiz direções de teatro e de cinema, já escrevi para o teatro, o cinema e a televisão. Publiquei vários livros, inclusive sobre técnicas de roteiro, faço supervisão nessas áreas de minha experiência, dou consultoria, tenho - permitam-me que o confesse - muitas competências). E acrescentava mostrando (e brincando com) sua versatilidade e demonstrando seu espanto diante dos novos tempos. "Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens... O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto". 

Apesar da relativa repercussão não se sabe se desse apelo surgiu alguma oferta. Maciel morreria pouco mais de dois anos depois, em dezembro de 2017, vítima de falência múltipla de órgãos. Tinha 79 anos.

Em tudo que escreveu e falou sobre si em suas declarações extremamente pessoais e confessionais, Maciel conseguiu ser explícito e conciso quando se resumiu numa auto-entrevista em que se (re)apresentou aos leitores na edição de número 500 do Pasquim. Maciel, que então já havia se dedicado a tantos outros projetos - peças de teatro, programas de televisão, shows, discos, oficinas de textos, outros jornais - agora se reapresentava declarando sua profissão de fé, no que acreditava e no que aquele período inicial foi fundamental na sua formação: "Em tudo. Mas, principalmente, a nossa loucura da época. A vontade de mudar, criar, inventar, viver". E encerrava: "Minha mesma loucura de agora e de sempre".

** Márcio Pinheiro - Jornalista, escritor, um dos principais divulgadores da cultura brasileira 
Foto Luiz Carlos Maciel - arquivos pessoais M.P.


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