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Dia maldito, aquele - Carlos Marchi

22/04/2021 00:00




Dia maldito, aquele 

Por Carlos Marchi **

Às seis e pouco da tarde do dia 14 de março de 1985 eu descansava em casa para os eventos festivos da noite. O telefone toca e era Mauro Salles, para determinar que fosse voando para o Hospital de Base:

"O presidente vai ser internado", revelou. O coração me subiu à boca.

Todos os que trabalhávamos na assessoria de Tancredo Neves sabíamos que ele não estava bem. E que, logo após ser empossado, em 15 de março, seria conduzido a um hospital para ser examinado a fundo e operado. Naquele telefonema, surgiam duas imensas preocupações; uma, com a saúde do presidente; outra, com a saúde institucional do país.

- "O que devo fazer no hospital, Mauro? Onde vamos nos encontrar para a distribuição de tarefas?"
A resposta dele me assustou: - "Ninguém sabe direito o que fazer. Portanto, faça o seu melhor."

Quando cheguei, o hospital ainda estava em calma. Mas em poucos minutos começariam a chegar políticos e jornalistas. Logo viraria uma casa de loucos. Decidi cumprir uma tarefa de minha própria lavra: fechar portas para proteger o presidente.

Nem crachá tínhamos. Mas como estava de terno e gravata, comecei a dar ordens a guardas internos: "Feche! Feche!"
(Guardas nunca questionam ordens de quem usa terno e gravata.)

Em dado momento, apertei o botão do elevador; quando a porta abriu, os cinco passageiros me olharam: Deputado Ulysses Guimarães, vice Aurelino Chaves, futuro ministro Leônidas Gonçalves e os senadores FHC e Humberto Lucena. Hesitei. Ulysses disparou: "Entra, Marchi." 

Embarquei e descobri que eles estavam a caminho de uma conversa com o ministro Leitão de Abreu, chefe da Casa Civil.

Peguei a conversa pelo rabo - a discussão entre eles era saber quem tomava posse, se o próprio Ulysses, se Sarney.
Dia maldito, aquele. Dia triste danado. Dia terrível para a democracia brasileira, como se fosse um castigo a cavalo.

Aquela tristeza cavalgaria em catadupa até o dia 21 de abril de 1985, uma data que hoje completa exatos 36 anos.
Ali o Brasil começava a perder o bonde da História. E não o encontrou até hoje.
 
Carlos Marchi **  Premiado jornalista e escritor. Autor de Senhor Republica e Aquele imenso mar de liberdade
Crédito foto Tancredo Neves - OGlobo­


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