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A historia de um japonês - Sergio Kobayashi

13/12/2021 00:00




­Historia de um japonês
Por Sergio Kobayashi **

Meu pai, Shigueo Kobayashi, na distante década de 1940, escolheu Pedreira, interior de São Paulo, para morar e criar seus filhos. Compulsoriamente!

Ele foi uma das muitas vítimas do preconceito de ser oriundo do "Eixo Itália-Alemanha-Japão", quando o Brasil apoiou os Estados Unidos e mandou contingentes para a guerra na Europa.

A Polícia de Getúlio Vargas foi clara e definidora: Pega a mulher, faça a trouxa e caia fora do litoral paulista. Ou seja, que se mandasse pra outras bandas, onde não houvesse colônia japonesa e proximidade com os navios e possíveis submarinos alemães.

De permanecer em Iguape, seria preso e deportado para alguma fazenda de café no oeste do estado ou preso em São Paulo e vigiado diuturnamente.

Muito azarado o meu pai! Fora tipificado possível "colaborador do eixo", pois seus documentos diziam ser ele "técnico agrícola" ao invés do comum jargão "imigrante". Estupidamente classificado um profissional engajado e, como tal, possível espião e elemento politizado.

Com o susto superado, rapidamente especulou com conhecidos para onde poderia ir. A ele foi sugerido, por um filho de imigrante italiano, que fosse para Pedreira, então pequenina cidade da região de Campinas. Recomendou conhecidos em Pedreira que, além de terras boas, clima ameno e muita água, seria bem acolhido pelos italianos. Também eram imigrantes, mas que não eram discriminados, por antigos na região e abrasileirados com filhos e netos. E, melhor, nenhuma família japonesa.

E não é que deu certo?

Shigueo, que mal falava três dezenas de palavras em português, eles batizaram de Paulo e depois apelidado "Nhanta". A mulher, Sumiyo virou Iracema, que er, filha das primeiras famílias de imigrantes japonesas. Nascida em Iguape falava português fluente. Virou a intérprete do marido. E, na roça, criaram seus filhos.

Meu pai percebera que ali os seus conhecimentos agrícolas valeriam. A titulação não estava incorreta nos documentos. Ele de fato era formado como Técnico Agrícola em Nagano, sua cidade natal. Japonês não mentia.

Assim foi aos poucos ensinando produtores locais que tomate se plantava em pé, estaqueados com tiras de bambu, enfileirados, espaçados e com podas. O tomate de então era colhido por ramas que se esqueiravam pelo chão, miudinhos e sem aproveitamento pleno da exposição ao sol. Já a melancia, que não podia ser em pé - óbvio! -, deveria todos os dias ser remexida de forma que também utilizasse o sol como seu principal fator de crescimento e sabor.

Até para o chuchu, que os portugueses trouxeram nas caravelas, meu pai deu solução: Pendura nas cercas. Fica maior e - se é que seja possível! - mais saboroso! E muitas outras dicas na lavoura que imagino, ainda hoje são praticadas em Pedreira. Ah, meus pais, também passaram por fazendas de Amparo, Jaguariúna e Serra Negra!

O que o entristecia, era que migrara ao Brasil em virtude da promessa que aqui ficaria rico. Morreu em 1980, sem nunca ter sido proprietário de um mísero metro quadrado de terra! O que conseguiu produzir bem foi a prole, sete, tal qual os italianos!

Nada de ressentimentos. A sua índole amigável e alegre lhe rendeu muitos amigos. E até de políticos locais. Fruto da  generosidade de um combativo prefeito, Antonio Ganzarolli Filho, um legítimo descendente da safra italiana que acobertara Shigueo das durezas da guerra, fez homenagem póstuma ao japonês que chegara como fugitivo político e que, sem perceber e ao seu modo, contribuiu com o desenvolvimento da cidade.

Ganzarolli nominou um conjunto habitacional com o nome Shigueo Kobayashi, na mesma região onde outrora meu pai plantou tomates.

A vila, originalmente um conjunto de "casas populares" cresceu, modernizou e atualmente é um importante espaço residencial e comercial da cidade.

E até um time de futebol próprio o bairro criou e, para orgulho da nossa família, deu-lhe o nome de Kobayashi Futebol Clube! E, mais importante ainda, é o campeão do torneio municipal de 2021...Rumo a Primeira Divisão ?

** Paulo Kobayashi -  Educador e Jornalista
Castelo Matsumo em Nagano - Pinterest



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