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A primeira guerra nunca se esquece - Guillermo Piernes

06/01/2022 00:00




­A primeira guerra nunca se esquece

Por Guillermo Piernes **

Passaram 40 anos da Guerra das Malvinas. O conflito foi em 1982.
Ficaram lembranças que o tempo não apaga e um entendimento mais amplo do desvario humano. A primeira guerra não se esquece.
Fiz a cobertura do maior conflito no Atlântico Sul desde a Segunda Guerra Mundial para a agência americana de noticias United Press Internacional (UPI). Minha primeira guerra como correspondente.
Nessa guerra as bombas, mísseis, torpedos, foguetes, granadas, balas e minas mataram 649 soldados argentinos e 255 britânicos. Foram milhares os feridos.
As seqüelas psicológicas do conflito levaram ao suicídio a 352 soldados argentinos e 264 ingleses que participaram da disputa bélica pelas ilhas austrais situadas a 400 milhas da costa patagônica.
A região esteve a ponto de ser cenário do uso de armas nucleares por parte da potencia européia, o que configuraria o horror dos horrores.
Foi um conflito pela posse das terras e águas dessas ilhas frias. Quando se trata de invasão de terras na América Latina nos últimos 500 anos ninguém tem toda a razão, salvo e com algumas ressalvas, descendentes puros dos povos originários.
Também vale sobre as ilhas, que ao longo do tempo foram ocupadas por grandes impérios. Os argentinos a herdaram quando ruiu o império espanhol. Até que uma frota britânica em 1833 expulsou o governador Vernet que tinha sido enviado pelas Provincias Unidas para as ilhas em 1829.
Esses detalhes legais ou históricos pouco importavam para o Império britânico que as colocou sob o manto da Rainha. Assim Grã Bretanha passou explorar inicialmente a caça as baleias e depois peixes, gás, petróleo e no futuro provavelmente até uma estratégica base militar na América do Sul.
Durante décadas a ONU aprovou um monte de resoluções para que Grã Bretanha abrisse negociações com Argentina sobre as Malvinas. Como existe o poder de veto no Conselho de Segurança por parte de cinco potencias, entre elas Grã Bretanha, nada foi adiante. A justiça não é e nunca foi prioridade no jogo geopolítico.
Em 2 de abril de 1982 o desgastado regime militar argentino jogou a sua última carta para manter apoio entre a população, ao recuperar as ilhas porem estabelecendo "não derramar sangue britânica nem destruir propriedade britânica". Assim aconteceu. Pensaram que Grã Bretanha não iria à guerra.
Os militares argentinos ignoraram que a primeira ministra Margaret Thatcher estava despencando em popularidade e nada como uma guerra para unir a parcela menos iluminada da sociedade.
Thatcher mandou uma frota improvisada. Porem dois porta-aviões e um torpedeiro carregaram um total de 31 armas nucleares. A potencia européia não podia perder essa guerra. E se Grã Bretanha tivesse utilizado as armas nucleares? ...
Felizmente, a diplomacia do Foreign Office e o presidente francês Francois Miterrand convenceram a Thatcher que usar armas atômicas, seria uma violação do Tratado de Tlatelolco que veta as armas nucleares no Atlântico Sul e que o mundo viraria abertamente anti-britânico.
Fui enviado a Buenos Aires ainda em março, uma semana antes do desembarque argentino em Porto Stanley. Dois dias depois da minha chegada a Buenos Aires expliquei ao editor Abel Dimant, editor do serviço latino-americano, o porquê os argentinos ocupariam as Malvinas.
O argumento foi de uma lógica impecável: "loucura está aqui solta por toda parte".
Aconteceu. A sensação do palpite certo foi desconfortável, quase como predizer que tal avião vai cair ou o prédio de uma escola ruirá.
Itamaraty tentou uma resolução na ONU que basicamente determinava que a frota britânica detivesse a sua navegação as ilhas. Os argentinos deviam abandonar as ilhas, deixando o futuro do arquipélago em mãos das Nações Unidas. Não houve acordo. Bom lembrar que Grã Bretanha tinha poder de veto no Conselho de Segurança.
Em caso de ataque britânico ao continente poderia complicar ainda mais a situação, explicou o brilhante porta-voz do Itamaraty, embaixador Bernardo Pericás, citando artigos do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).
A partir desse momento passei a buscar uma poderosa fonte militar que pudesse passar informação, sabendo que sempre os comunicados oficiais nas guerras são demorados, imprecisos, omissos ou simplesmente mentirosos.
(N.R. Pela primeira vez estou entregando uma fonte, porem acho que a história deve ser contada com fatos verídicos).
Convidei para um café ao capitão retirado da Marinha, Carlos Massera, que tinha conhecido anos antes no Rio de Janeiro como diretor da empresa que gerenciava a frota mercante estatal. Massera era irmão de Emilio Massera, o todo-poderoso almirante que tinha saído da Junta Militar poço antes do conflito. Mandava muito. .
Tinha informação que Carlos Massera era da inteligência da Marinha. Queria receber informação boa e rápida e propus identificar as fontes apenas como "fontes militares" e que as informações recebidas não seriam modificadas. "Vou consultar", disse. Acabou o café e saiu do bar na Avenida de Mayo.
Dois dias depois outro café foi marcado, por ele, num barzinho no Paseo Colón. "O país está em guerra e você sabe as regras para todos os cidadãos", lembrou-me. Imediatamente veio a imagem de um pelotão de fuzilamento. A pesar da imagem passei a escutar dados fundamentais para entender os próximos dias de guerra.
Massera comentou com luxo de detalhes que a frota britânica foi preparada as presas, que vários navios careciam de blindagem, ou seja, que ao receber impactos de foguetes de outros navios ou aviões se transformariam em verdadeiros fornos de metal, além de ser mais facilmente afundáveis.
Passou vários minutos destacando a preparação da aviação argentina y que teríamos "muitas surpresas". Foi pessimista se os britânicos chegassem a desembarcar nas ilhas porem reafirmou "tudo tem de ser decidido no mar". Foi combinado que periodicamente alguém me telefonaria na UPI e passaria informação.
Nunca mais vi ou soube dele. A informação mais relevante que recebi por essa via foi no dia 4 de maio, transmitida por um homem de voz grossa e seca. Foi de um dos primeiros ataques da aviação argentina a frota britânica, realizado com caças e mísseis de fabricação franceses.
Era meia manha. Foi um "furo" mundial que quase me custou um infarto. "Aviões argentinos atacaram com mísseis a frota britânica, informaram fontes militares", foi mais o menos assim o flash que redigi, enviado pela UPI e que foi reproduzido por milhares de meios de comunicação do mundo, em poucos minutos.
A confirmação oficial do ataque somente saiu ao fim da tarde no escritório que o Alto Comando tinha no Hotel Sheraton em Buenos Aires
Dois Super Etendards que decolaram da base de Rio Grande, a uns 800 quilômetros das Malvinas, lançaram um ataque com míssil Exocet contra o destróier britânico HMS Sheffield. Os impactos provocaram um incêndio devastador. O destróier afundou seis dias depois.
Nesse Hotel Sheraton vários correspondentes internacionais estávamos hospedados, entre eles colegas conhecidos e amigos entranháveis como Enrique Durand e José Antônio Severo.
A cama do hotel era boa porem foi uma serie de muitas noites mal dormidas. Eram longas jornadas a pura adrenalina. Numa noite consegui ir jantar na casa da minha mãe no bairro de Belgrano, a quem não visitava fazia um ano. Ao fim do jantar senti o meu coração disparar.
Deixei a sobremesa de lado. Expliquei a minha mãe que precisava voltar logo ao hotel para descansar um pouco. Dei um beijo na minha amorosa velha e fui diretamente ao hospital mais próximo.
Eletrocardiograma normal. As porem pulsações batiam recordes.
-- Esta passando por estresse, afirmou o medico.
--- Todo o estresse imaginável porque estou cobrindo a guerra como jornalista, respondi. Senti que o médico teve pena de mim.
Aplicou um sonífero porque segundo ele, eu apenas precisava dormir profundamente. Cai duro numa maca da enfermaria. Assim foi. A manha seguinte, com a mesma roupa amassada da véspera e uma cara de meio defunto voltei ao escritório.
Ninguém reparou no meu estado lamentável. A guerra continuava. Uma guerra que deixava ensinamentos militares e políticos.
Que os submarinos nucleares são um excelente elemento de combate porém não cumprem satisfatoriamente a função de presença naval em tempos de paz.
Que quando a sorte do inimigo está por um fio, o mais fácil é cortar esse fio.
Que a logística ganha o perde a guerra.
Que os comandos militares devem ter um dialogo fluído com as autoridades políticas que devem ouvir-los porem sem necessariamente seguir os seus conselhos.
Que nesta era tecnológica, ?a pericia e a coragem não são suficientes".
A síntese foi do almirante americano Harry Train, que comandou a Frota do Atlântico dos Estados Unidos durante o conflito.
Quando os britânicos fizeram uma cabeça de ponte nas ilhas eu sabia que era questão de dias para o fim. Estados Unidos, que fez muito para impedir o conflito, já tinha passado toda a informação de satélites para proteção do seu maior aliado dessa guerra.
Não acompanhei o fim da guerra.
O editor Dimant me ligou novamente e me disse: "Bom trabalho. Acabou para você porque tens de viajar logo a Espanha porque a FIFA não aceitou substituições na lista de profissionais enviadas pela agencia".
Dois dias depois estava acompanhando no primeiro treino da seleção brasileira para o Mundial de Futebol de 1982. O artilheiro Careca sofreu uma distensão. Sai correndo para informar sobre essa noticia importante para o Brasil.

"Que mundo louco!" pensei. Estava certo.
Essa cálida noite me entreguei à magia de Sevilha. Rendi-me a sua musica, a boa cerveja. Nem guerra nem morte. Apenas vida. Nesse bar perto do rio Guadalquivir, a vida continuava cativante como a morena de olhos grandes e negros que sorria na mesa próxima.

 ** Guillermo Piernes, jornalista e escritor
* Imagem de avião da força aérea argentina - arquivos militares
Crónica publicada no site jornalístico osdivergentes.com.br


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