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Brasil e Argentina - José Fonseca Filho

24/01/2022 00:00




­Brasil e Argentina: Diferentes mas porém iguais 

Por Jose Fonseca Filho **
A fronteira entre o Brasil e a Argentina não é lá muito grande, quase toda ela formada por rios, exceção de um trecho que comporta as rodovias.

Por ali circulam motorizados milhões de irmãos dos dois maiores países desta parte da América.

Por essa estreita passagem, larga na disponibilidade de simpatia e amizade, cada vez mais brasileiros e argentinos seguem seus caminhos, para lá e para cá. Já poderiam estar mais unidos. O que há de acontecer com a natural e frequente evolução.

Não faltam afinidades, algumas divergências ou passageiras antipatias, mas também boas ocasiões de duplo crescimento e maior aproximação. Não apenas para que os argentinos tomem banho de sol e praia no Brasil e nós nos arrisquemos a subidas nas serras portenhas, loucos para colocar o dedão na neve até congelar. Teremos o prazer de ver e sentir a beleza da neve, e eles a alegria de rolar na areia torrada pelo sol. Ambos solidários entre si.

Pelas rodovias os argentinos correm para as praias do sul brasileiro, destacando-se as de Santa Catarina, das mais bonitas do país. Falta-lhes ainda ousadia para tomar a direção das praias do Nordeste, entre as mais belas do mundo.
Na região lamenta-se a ausência dos alegres argentinos, que devem estar evitando o sol forte que afeta-lhes a pele alva. Mas existe a gostosa e exclusiva refrescância da água de côco, agora também engarrafada. Aos brasileiros falta aventurar-se pela Patagônia.
Os brasileiros precisam aprender também que a Argentina não é só Buenos Aires, Bariloche, carne excelente e bom vinho, além dos doces. Lá existe boemia, curtição da noite. Aqui é mais barulho noturno, com tantos bares. Os dois povos são alegres e musicais, ou não haveria o samba nem o tango, maravilhas para dançar. Ambos são extraordinárias expressões da arte e cultura de seus povos, dificilmente superadas. Uma aproximação saudável que deve ser estimulada bilateralmente.
As mulheres argentinas são lindas. As mulheres brasileiras lindas são. O samba é uma explosão de alegria. O tango é uma afirmação romântica. Poderes utilizados pelas mulheres para encantar a humanidade. Nós as reverenciamos com muita devoção e agradecendo a alegria que nos proporcionam.
As mulheres argentinas possuem as pernas mais bonitas e perfeitas do globo. Ao dançar o tango, uma delas se destaca e sobressai com a abertura lateral do vestido, movimento essencial da dança. Com a evolução dos passos podem aparecer mais ainda, subindo alguns centímetros. Ou, lamentável, descendo. Os passos das bailarinas e seus parceiros são fantásticos. O tango é uma música e dança de rara beleza, que estimula a sensibilidade.
A emoção de "El dia que me quieras" a mim me derruba, completamente. Se fosse "El dia que no me quieras", a mim me liquidava. Com nosso respeito e admiração aos bravos bailarinos argentinos que as acompanham nos passos sincronizados e cuidam para que não sofram quedas. Essas maravilhas em ação os brasileiros poderão ver na querida Buenos Aires. Não em Copacabana.
As sambistas não são páreo para disputa com as dançarinas de tango porque o estilo das artes que praticam são absolutamente diferentes. Em vez de vestidos longos, ou curtos, as sambistas usam biquínis. Bastante enfeitados, com tudo que brilhar, mais um monte de plumas.

As fantasias não são caras porque com um metro de tecido se faz um biquíni. Os vestidos do tango são igualmente lindos, e de modo a permitir as variadas evoluções da dança.

O príncipe Charles, herdeiro do trono da Inglaterra, já dançou com uma sambista, no Rio. Ela estava vestida, por exigência da Rainha. Não de biquíni. O samba é um ritmo alegre e agitado.

Charles ficou impressionado com a mulata Pinah, sua parceira, mas trocou as pernas na dança. Quase cai. A Scotland Yard fez um report para a Rainha afirmando que o Príncipe Charles manteve comportamento "respeitoso e discreto", honrando a fleuma britânica. Realmente, nossas mulatas devem ser assim tratadas.

A Argentina de meados do século passado era dos maiores produtores de carne do mundo, e com isso enriqueceu, abastecendo a Europa depois da II Guerra. Carne de primeira, como dizem os especialistas. O Brasil, apesar de seu imenso território, desse ramo da pecuária, na época, só produzia salsicha.

No particular, o Brasil desenvolveu-se rapidamente nos últimos anos. Hoje é o segundo maior produtor de carne do mundo. No setor, os dois países estão novamente próximos. Hoje, no Brasil, provavelmente existem mais bois e vacas do que gente. Pelas estatísticas são mais de 200 milhões. Porcos e galinhas também abundam.

Creio que o churrasco/asado portenho é melhor do que o nosso, embora não tenha conhecimento suficiente para opinar. Na verdade, de carnes só gosto de filet mignon/ bife de lomo, que os verdadeiros churrasqueiros desaprovam. Vou a todo churrasco/asado que me convidam. Neles, o que mais como é o pão.
De olho preto na alegre noite argentina
Como jornalista, correspondente no Brasil do jornal Diário de Notícias, de Lisboa, fui destacado para cobrir o final da eleição presidencial argentina de 1989. Carlos Menem foi eleito. Um tipo meio populista que provocou grande comemoração de grupos populares. Buenos Aires era uma festa, com eventuais exageros. Chopes rolando, vinhos pela garrafa, uma animada comemoração.
Encerrada minha tarefa no dia da eleição, fui caminhando para o hotel, na larga avenida que tem ao início um obelisco gigantesco. Era tarde da noite e caminhei alegre com o dever bem cumprido. De repente, sem que eu percebesse, dois sujeitos avançaram em minha direção e me acertaram um soco na cara. Não caí porque me encostei numa saliência da parede.
Os que me acertaram, àquela altura, já deveriam estar fugindo pelo metrô. Eu estava bem mas um pouco zonzo. Cheguei no hotel tranquilo. O soco poderia ter sido o desabafo de um eleitor do candidato derrotado. Eu era indiferente em relação aos candidatos e continuo achando que os argentinos são um povo educado e não violento.
Pode até ter sido um ato psicologicamente compreensível. Acontece que o ladrão só conseguiu meter a mão no bolso esquerdo do meu paletó. De lá conseguiu retirar 60 dólares. Era o que tinha. A carteira estava no abotoado bolso da calça, não puderam tirar.

No outro bolso do paletó havia 5 notas de cem dólares e várias de 20. Um sistema ingênuo que sigo para evitar roubos desse tipo. Mas ele não conseguiu meter a mão no segundo bolso. Raivoso, acertou meu olho esquerdo.
Portanto, prejuízo financeiro mínimo. E lembrei: os argentinos são legais e têm consideração com os estrangeiros. Descansei bastante no hotel, depois de tanta emoção. Só então percebi que meu olho esquerdo estava avariado. Abaixo dele formou-se um grande hematoma escuro. O cara me acertou para valer.
Dia seguinte voltei assim mesmo para a sala de prensa oficial e aos curiosos disse apenas que fui vítima de uma tentativa de assalto, mas não conseguiram levar nada. Talvez por isso me acertaram o olho esquerdo com um petardo. Fiquei 5 dias com o selo de pugilista derrotado na cara, que me acompanhou até Brasília.
Como virei informante de argentinos
Em Brasília, dada minha atividade jornalística, tinha bom relacionamento com as grandes embaixadas, inclusive a da Argentina. Obviamente, seus funcionários e centenas de argentinos residentes na cidade estavam interessados em acompanhar a apuração dos votos.
Num dos melhores hotéis da cidade, a Embaixada instalou equipamentos com telão, para acompanhar o andamento da apuração.
Ligação direta com Buenos Aires, cada boletim da votação era imediatamente transmitido. Satisfação geral com a informação garantida e os números, até então. Entre os convidados estava minha namorada, que assistia como amiga que éramos de alguns deles. Para ela eu ligava de vez em quando, nem sempre pelas eleições argentinas.
Desde o início da apuração eu transmitia matérias para o Diário de Notícias de Portugal informando, pelos meus boletins, a cada novo resultado parcial. E assim seguia a apuração. Repentinamente o sistema instalado no hotel pela Embaixada argentina começou a falhar, deixando a assistência em polvorosa. Não mais som, e a seguir escapou a imagem. Até que parou de vez. Decepção geral. Tinha sucos e salgadinhos, mas a transmissão não havia mais.
Em contato com nossos amigos, incluindo o embaixador na época, Jorge Hugo, minha namorada informou-lhes que eu estava em Buenos Aires transmitindo a eleição para o Diário de Notícias, de Portugal. Logo se cogitou se eu poderia fazer algo para ajudar o grupo frustrado.

Outro telefonema da namorada e eu avisei que passaria a ligar transmitindo cada boletim que fosse divulgado. Desde que não prejudicasse meu trabalho para o jornal de Portugal. E foi o que aconteceu.
Daí em diante foi uma correria permanente. Saía um resultado eu corria para o computador - nem lembro se já existia - produzia e soltava a matéria para o Diário de Notícias. Depois corria para o telefone, nem sempre vago, ligava e lia os últimos boletins oficiais da apuração. Com a calma possível para quem atendia. E informações sobre a situação em Buenos Aires.

Tudo era gravado e repetido, para que todos fossem informados. Naquela época, se lembro bem, não havia internet nem celular. E mesmo assim tudo correu muito bem, com rapidez. Colegas achavam que eu estava com algum desequilíbrio emocional, correndo para lá e para cá.

Quando tudo deu certo, ao final da proeza, estava esgotado. Tomei uma copa de vino tinto para comemorar. Fiquei muito feliz.
De vez em quando alguém perguntava o que houve com meu olho preto. Fingia que não ouvi, para não ter de explicar mais juma vez. E assim, numa ação organizada e com precisão, a maioria da comunidade argentina de Brasília conseguiu ouvir os boletins de apuração, um atrás do outro. Souberam da eleição de Carlos Menen simultaneamente com a população argentina em seu país.
Se alguns ficaram mais, ou menos alegres com o resultado, ignoro inteiramente. Colaborei com nossos amigos argentinos, não com partidos ou candidaturas.

** José Fonseca Filho é jornalista, mas queria ser cosmonauta
Crédito imagem: Aquimequedo.com.br



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