Guillermo Piernes
GUILLERMO PIERNES

Home
Home

Autor do Site
Autor del Sitio

Crônicas
Crónicas

Contos e Poemas
Cuentos y poemas

Artigos
Artículos

Escritores e Artistas
Escritores y Artistas

Índice
Índice

Links
Links

Contato
Contacto

Correio dos Leitores
Correo de los Lectores

Guillermo Piernes
GUILLERMO PIERNES
Crônicas
Crónicas
Vida no cortiço - Justo Piernes

12/07/2020




Os que viveram num cortiço

Por Justo Piernes **

Nasci e vivi em um cortiço, como 80% da geração de 1940, a chamada geração perdida na Argentina, um país muito rico com seus habitantes muito pobres.

E eu estou orgulhoso. Porque aqueles homens e mulheres - caçados pela fome - me ensinaram a essência da vida. E o que é uma luta real. A luta interior. A que funciona para sempre.

- Sim, nasci e cresci em um cortiço.

Estava quase no centro de Buenos Aires, na rua Chile, 1340. Tornei-me homem naquele pequeno cortiço. E nesse cortiço começam os exemplos permanentes que me guiaram. E eles ainda me ajudam a ter fé. Saber o que realmente é a luta pela vida. E - aliás - eles reduzem os problemas de hoje que ao lado daqueles que atormentavam aqueles homens e mulheres - são simples contos de fadas. Vamos para esses exemplos.

Que fenômeno foi Dona Lúcia! Ela morava na "sala". Tinha ficado viúva com uma criança. Ela foi forçada a passar ferro porque não havia pensão nem nada. O trabalhador que morria, realmente morria. Morria para a vida toda. Ele e aqueles que estavam pendurados na corda da falta de justiça social. Dona Lucia levantava-se às cinco da manhã e ia dormir à meia-noite, sempre feliz. Com um Sole Mio a flor de lábios. A lembrança de sua Itália que havia deixado aos quinze anos. 

Ela fez milagres com seu ferro. Aquele garoto recebeu o diploma de doutor em ciências econômicas.

O asturiano na sala de jantar. Outro fenômeno. Ele era um açougueiro. E os açougueiros daquela época alcançaram "a grande conquista" a de não trabalhar na tarde de domingo. Além da folga na tarde de domingo, ele tinha uma úlcera na perna. Eu ouvia seus gemidos de dor ao amanhecer quando ele levantava para ir ao açougue. E assim, segurando as paredes, voltava ao meio-dia para tirar uma soneca de duas horas.

Aqueles cochilos de Don Nicanor eram sagrados para todos os habitantes do cortiço. Não era ouvido nem o voo de uma mosca. Estávamos todos cientes de quanto esse descanso era necessário. E depois de duas horas, de pé novamente, para voltar ao açougue.

E isso todos os dias. Foi um milagre de sobrevivência. Assim - gemendo baixinho e segurando as paredes - ele viveu cinco anos sem perder um único dia. Ele morreu disso? Cientificamente constava no atestado de óbito que ele havia morrido de leucemia. Mas não.

Eu sei do que ele morreu. Eu descobri isso ao longo dos anos. Don Nicanor morreu de uma doença de uma época argentina. Trabalho sem recompensa. Nem físico, nem moral, nem econômico. Don Nicanor morreu de injustiça. Por que continuar com Don Nicanor. Por que lembrar a tristeza de um velório que estava mais triste na sala daquele cortiço. Don Nicanor foi meu grande exemplo. É que Don Nicanor era meu velho ... 

Do livro Crónicas com Bronca
Crédito Imagem: Pie&Pata
** Justo Piernes: Mestre do jornalismo sulamericano



[ VOLTAR ]
Textos protegidos por Copyright - Guillermo Piernes 2020