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Watergate: A Lei venceu - Guillermo Piernes

07/07/2020




Por Guillermo Piernes **
O episódio Watergate mostrou que a lei deve respeitada por todos, até pelo presidente mais poderoso do Planeta.
Como então correspondente em Washington do serviço latino-americano da agencia Reuters eu tive a missão de escrever diariamente em espanhol sobre o episódio para milhões de leitores da região.
Começou em 1972 como mais uma noticia de policia publicada nas paginas interiores dos jornais locais. Cinco pessoas foram detidas, supostamente ladrões, por invadir o escritório do opositor Partido Democrata, no prédio Watergate localizado junto ao Rio Potomac, em Washington.
Semanas depois de publicada essa curta noticia policial, Nixon venceu facilmente as eleições presidenciais. Após a eleição o Washington Post começou a publicar uma serie de matérias sobre a invasão da sede do Partido Democrata descartando a hipótese de uma ação isolada de marginais.
Fazia menos de um ano que eu tinha chegado a Washington para traduzir para os leitores latino-americanos o que acontecia na Roma dos tempos modernos, na definição de um diplomata da época.
Os reporteiros Bob Woodward e Carl Bernstein assinavam as matérias no Washington Post e escreviam sobre indícios de motivação política da Casa Branca. A Casa Branca desmentia ou buscava desmerecer cada matéria. Pensei que os reporteiros perderiam o trabalho. Nada disso.
O jornal ampliou a cobertura do caso deixando claro que a Casa Branca tinha culpa no cartório e afirmava ter fontes confiáveis. Quando cresceu a pressão das autoridades contra o Washington Post, pensei que esse veículo poderia baixar o tom ou substituir os noticiários por trivialidades como tinha assistido ao sul do Equador. Nada disso.
A fonte depois conhecida como Garganta Profunda ou Deep Throat (era o título de um conhecido filme pornô da época) debilitava as versões da Casa Branca com informações precisas. Em 2005 foi revelado que essa fonte era W. Mark Felt, o ex-Número Dois da Policia Federal americana (FBI).
Essa coragem da imprensa independente teve um efeito cascata. Os principais jornais dos Estados Unidos passaram a focar também no tema Watergate. A Casa Branca passou a reclamar da mídia quando nomes de assessores de Nixon eram mencionados nas noticias relacionadas à invasão da sede do partido democrata. Nada adiantou.
O editor chefe para America Latina passou a revisar pessoalmente os textos preparados por mim, com desgastante esforço por ter de interpretar minúcias legais colocadas por grandes especialistas em inglês que dominava perfeitamente porem era minha terceira língua.
A agência queria evitar que detalhes de redação retirassem credibilidade às matérias porque pese a dominar perfeitamente o inglês era minha terceira língua. No meu escritório no National Press Building na 14th e a F. Street eu também estava preocupado com a possibilidade de ter qualquer problema com a todo-poderosa Casa Branca, onde era credenciado como correspondente estrangeiro.
Em todo momento, a pesar da tensão entre a Casa Branca e a imprensa na aceleração do processo testemunhei completo respeito entre as partes.
Quando Nixon o presidente cumpria um ano e meio no seu segundo mandato, novas informações ligaram assessores de presidente Nixon a ilegal invasão. Foi criado um Comitê de Investigação no Senado.
Foram apreendidas fitas gravadas na Casa Branca que indicavam, porem não provavam, que o presidente tinha conhecimento das operações ilegais contra o partido de oposição, porém haviam sido editadas.
Assessores presidenciais do primeiro escalão renunciaram e foram convocados a depor perante o Comitê. Pensei que o publico ia se cansar de acompanhar as cuidadosas palavras de juristas, advogados, assessores e senadores falando de leis, história, tradição e de ética. Nada disso.
Grande audiência acompanhava a TV que transmitia diária e integramente as longas sessões ao vivo. Muitos parlamentares democratas e numerosos republicanos concordavam que o presidente não poderia apelar a doutrina do privilegio do Executivo e deixar de entregar fitas completas do Salão Oval. A verdade precisava ser exposta.
O cerco fechou. O Attorney General (Procurador Geral) fez a sua parte com total isenção. Em julho de 1974 a Suprema Corte, por unanimidade, obrigou a Nixon a apresentar as gravações originais que comprovariam o seu conhecimento e envolvimento no crime.
Duas semanas depois do falho da Suprema Corte, Nixon renunciou.
Nixon livrou seu país do tormento de um demorado processo desgastante para os três poderes. O vice Gerald Ford completou o mandato, com total normalidade e sem o caos que alguns profetizavam ao inicio do processo.
Os Estados Unidos saíram da paralisia provocada pela crise política que comprometia a sua economia e suas relações com o mundo. Acredito que o país ficou ainda mais forte para enfrentar os grandes desafios.
Crônica originalmente publicada no site www.osdivergentes.com.br 
Crédito da imagem: Suprema Corte - USA gov
** Guillermo Piernes, jornalista e escritor


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