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Perón e o gerente - Justo Piernes

15/07/2020




O gerente e Perón

Por Justo Piernes **


A geração de 1940 não foi politizada. A verdade histórica é que os dias de eleição se tornavam uma oportunidade formidável para jogar futebol nas ruas.

Havia uma enorme insensibilidade, criada propositalmente na escola, a tal ponto que naqueles dias de votar, cabos eleitorais costumavam vir à esquina do café para nos oferecer cinco pesos para emprestar-lhes o título de eleitor por um tempo. O título retornava pela tarde com o carimbo "votou em Lomas de Zamora" (N.R. município da região metropolitana de Buenos Aires).

Pensar que ainda hoje devemos suportar que as pessoas que alugaram seu título de eleitor lhe deem exemplos de civilidade - até mesmo de dentro do Parlamento Nacional - Eles nos acostumaram a surrupiar a vontade popular. Tinha-nos acostumados a trapacear usando nossos próprios títulos de eleitor.

As piadas sobre a famosa fraude nos faziam rir. Obviamente, ninguém estava interessado em politizar a geração de 1940. Mas, em 4 de junho de 1943, houve uma revolução. A verdade é que a geração dos 40 não a sentiu, mas a suportou. A alternativa cotidiana era comprar cigarros ou ir para casa. Essa revolução foi uma aposta. Se não der certo, ficamos como estamos.

Eu trabalhava com outros quatro companheiros no escritório nacional da United Press. Cada um recebia como reporteiro 80 pesos, um salário quase ridículo. A situação chegou aos ouvidos de um representante do sindicato dos jornalistas que nos orientou a ver o coronel Juan Perón, que chefiava a Secretaria de Trabalho.

Perón, então, representava quase nada. Estava dedicado a um trabalho de formiga, homem a homem. Recebeu-nos. Sorridente. Café. Relatamos nossa penúria.
- Vamos ver se dá para fazer alguma coisa...

Dez dias depois fomos convocados novamente para ver o coronel. Fomos lá. Mais café. Subitamente o assistente de ordens anunciou:
- O senhor Diaz está aqui.

O senhor Diaz era o gerente. Entrou. Com passo de gerente de verdade. Com olhar de gerente. Encolhemos nas poltronas. Sentimos-nos perdidos. E mudos assistimos ao dialogo entre Perón com Diaz.
- Que acontece com estes rapazes, senhor Diaz?
- Vou explicar. Existe a circular 182 do Banco Central que proíbe o reembolso...

Quando acabou pensamos que Perón estava destruído pela argumentação.
Nada disso. Por algo Perón foi e é Perón.
- Veja senhor Diaz. Nada entendo da circular 182. O que sim entendo é que com 80 pesos ninguém consegue viver...Por que não faz um esforço e aumenta uns pesos para estes rapazes?...

O gerente saiu. Pisando forte. Zangado. Perón nos disse:
- Tal vez o impressionamos.

E voltamos ao trabalho com tanto azar que dois dias depois, em pleno trabalho, recebemos a noticia:
- Perón está preso em Martin García ...! (N.R. Ilha no Rio de la Plata frente a Buenos Aires)
Ficamos mudos. Era a pior noticia da vida toda. Porque o gerente não perdoou. Pisando forte, aproximou-se de nos e deixou escapar um grunhindo.
- Vão reclamar a Perón ...!

Perón foi libertado. Era um 17 de outubro. Meses depois, houve eleições. Perón concorria à presidência. E enquanto as ruas estavam cheias de lendas "Braden ou Perón" (N.R. Spruille Braden era o embaixador dos Estados Unidos), na mente desses cinco jovens de 80 pesos por mês, outro slogan não tão político, mas real, crescia:
- O gerente ou Perón ...

O gerente perdeu.

Quantos gerentes terão perdido em 1946? Quantos gerentes terão repetido o erro do Sr. Diaz? Quantos teriam invocado essa ameaça inútil de vão reclamar a Perón. Se houvesse uma pesquisa com os gerentes que estavam errados teria surgido matematicamente por que a geração não politizada decretou a derrota do gerente ...

Do livro Crônicas com Bronca
Crédito Imagem: Juan Perón ? Instituto JDP
** Justo Piernes. Mestre do jornalismo sul-americano



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