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Por que Paris? - José Blanco

16/07/2020




Por que Paris ?

Por José Blanco **

Talvez por causa de um banco de madeira que existe na Champs Elisées, lá embaixo, num trecho com um jardim largo, arborizado, à direita de quem sobe em direção ao Arco do Triunfo.
As folhas verdes, jovens, algumas caindo lenta e precocemente, embaladas por uma brisa suave e já quente para um dia de início de primavera.

Talvez pelo céu. Azul e limpo, que lembra uma velha canção.
Ou quem sabe pelas lágrimas que brotavam junto com as lembranças de outros tempos e de outros lugares.
Mas era Paris. Primeiros dias de abril, outra vez.

Não lembro mais seu nome. Acho que fiz questão de esquecer. Mas lembro muito bem do seu rosto e do seu sorriso franco, suave e quente como a brisa daquele dia de início de primavera.
Era preciso sorrir, apesar das lágrimas, e agradecer pelas lembranças e escutar aquela voz rouca e ao mesmo tempo tão feminina e doce.

- Voulez- vous quelque chose à boire, mon amour ? De vin ?

A combinação perfeita: uma taça de um vinho tinto bem escuro, encorpado, um olhar firme, longo e profundo, e o silêncio dos apaixonados.
Outra canção explode no meu cérebro.
 April in Paris. Também não lembro bem quem cantava.
Ah... Frank Sinatra. Ella Fitzgerald. Acho que os dois.Com certeza os dois.
E, pra estragar, também a Dóris Day....
Tinha uma frase que foi escrita para mim, com certeza.
Premonitóriamente.

April in Paris. What have you done to my heart.?

Impossível fugir do destino, de suas armadilhas tão bem desenhadas, de suas iscas. Sempre mordemos avidamente e somos fisgados. Nosso coração sonhador e romântico nos cega.
Que bom...

Foi no Louvre, olhando o sorriso da Monalisa, a gente fica fascinado, se perguntando que teria sido a modelo. Nem era tão bonita assim. Nem sexy. Mas era a Monalisa.
Nem mereceu um quadro grande, de um metro por sessenta centímetros.
O cara não soube avaliar o potencial da moça.
Assim como eu.
Ela estava parada ao meu lado, em silêncio, olhando o mesmo quadro, quem sabe com os mesmos pensamentos.
Não era tão bonita assim. Nem estava sorrindo. Também não era sexy, estonteante, como sempre desejamos. Ou sonhamos. Mas tinha um perfume sedutor, irresistível.
Arrisquei:

- Chanel numéro cinq ?
Como resposta apenas um movimento afirmativo com a cabeça.
- C´est irrésistible, insisti.
Então veio um sorriso...
Sabe o que é um golpe mortal ?
Ou um hiza, se fosse caratê. O hiza é um golpe com o joelho que te derruba e normalmente acaba com a luta.
Pois foi ali, no silêncio e na paz do Louvre, que tomei um hiza.

Irresponsavelmente contra-ataquei:
- Toi, pas le parfum...
Sorrindo ela respondeu:
- Merci, mais je suis marié.
- Mais cela empêcherait-il un verre de vin ? insisti.
Não impediu...

Caminhamos até um bar ao lado do museu, que tem um terraço voltado para a pirâmide de vidro.
Meio da tarde, um sol iluminava e aquecia a cidade, e as pessoas caminhavam sem pressa e sorridentes, como se a felicidade realmente existisse para todos.
Eu estava feliz, com certeza. Aquele sentimento machista de uma meia conquista parisiense numa terça-feira a tarde, colocando em prática o melhor do meu francês, orgulhoso de minha coragem ou de minha irresponsabilidade. O verdadeiro sedutor latino.

Ela 40 anos. O marido, um diplomata francês baseado em Genebra, dois filhos adolescentes de 15 e 11 anos. Além de francês falava inglês e espanhol, thanks God.
Já tinha morado em Lisboa e tinham uma vida social muito ativa, cansativa até. Um casamento de 18 anos, mais de aparências, como é bastante comum no mundo da diplomacia.
Ela de uma família rica da sociedade parisiense e ele um homem mais simples, bonito e ambicioso, que lutou muito para chegar até a posição de segundo secretário em uma embaixada importante.

Não sei por que fiquei com ciúmes.
- Jé ne veux pas savoir beaucoup sur ta vie, falei com uma certa energia.

Ela simplesmente levantou e saiu caminhando sem olhar para trás. Elegante, sexy, decidida.
E esquecida...
Sobre a mesa ficou um isqueiro Dupond de ouro.
Tinha uma gravação manuscrita em letras minúsculas. Tive que colocar meus óculos de leitura para poder ler o que me deixou mais enciumado.

?Je t`aime. Jacques.?

Loucura. Idiotice. Non sense total e absoluto.
Ciúmes ?
Só rindo mesmo. Nem seu nome eu lembrava. Ela falou tão rapidamente, como falam os franceses, que na minha ansiedade nem registrei.

- Mon nom est...... o que mesmo ? Acho que falou madame alguma coisa, talvez seu sobrenome. Impossível lembrar.

Sempre fui ansioso. Muito ansioso. E, o que ninguém acredita, inseguro.
Eu tinha certeza absoluta de que fui fruto de uma gravidez indesejada. Esse é o tipo de coisa que fica profundamente marcada numa criança. Por mais amor e carinho que depois receba dos pais, aquela marca nunca se apaga. Dizem que o bebê sente essa rejeição no útero da mãe.
Deve ter sido assim comigo.

E ela saindo do bar sem dizer nada, e sem olhar para trás, me fez sentir o coração enrugado, pulsando aos trancos e quase querendo parar.
Senti as mãos suadas e um calor no rosto, que com certeza estava vermelho, e baixei os olhos com vergonha de mim mesmo.
Foi quando vi o isqueiro.
Uma chama acendeu em meu coração. Tinha certeza de que ela voltaria.
Chamei o garçom e pedi mais duas taças de vinho.
E esperei...

Em alguns minutos ela apareceu saindo da escada, séria e elegante, caminhando lentamente.
Sem falar nada, sem sorrir, sentou na mesa e tomou um gole de vinho. Aí pegou o isqueiro e acendeu um cigarro.
Então disse:
J´aime Paris.

- Pourriez-vous me rejoindrez pour dîner aujourd-hui ? perguntei sem nenhuma convicção.
Ela sorriu e falou: Vous parle de façon amusant....
-Toi aussi, disse eu.

E seguimos em silencio por dois quarteirões, até que ela respondeu.- Je connai un bon restaurant à Saint-Germain-de-Prés.
Isso era a maneira dela dizer sim.
Como também nunca dizia não. Construía uma frase que te respondia sem dizer sim ou não.
Bons restaurantes em Paris tem praticamente a cada esquina.
Je dois rentrez à la Maison maintenant. À 8 heures chez Freddy. Rua de Seine, 54...

Antes que eu me recuperasse ela já tinha sumido na multidão.
Acho que fiquei parado na calçada, com certeza com um sorriso bobo, sem saber muito bem o que fazer ou o que pensar....
Outra música me veio a cabeça... Love is in the air?
Quem escreveu está música foi um cara chamado George Young, escocês que morava na Austrália. Já morreu.
A letra da música dizia qualquer coisa assim: love is in the air every where I go...
Naquele momento sentia o amor no ar da Champs Elisèes...

O coração não pensa.... é ignorante. Faz você acreditar num sorriso e num perfume. E sonhar... flutuar.
Não bastava estar um Paris, tomar um bom vinho e pegar o voo de volta ?
Eu poderia ter ido no Fredy´s sozinho, sentar no balcão, como fizemos, e olhar os caras cozinhando do outro lado do vidro.
Poderia não ter ido ao Louvre olhar a Monalisa pela quarta ou quinta vez.
Ou poderia ter ido pra Nova Iorque curtir um jazz no Dissy`s Club Coca Cola no Lincoln Center. Sempre boa música.
Ou mesmo ficar em São Paulo e ir no All of Jazz.
Mas não, tinha que ser em Paris, naquele exato minuto, olhando o sorriso da Monalisa.

Por que Paris ?

Gosto de ficar sentado no terraço de meu apartamento olhando a Lua. Ela me fascina, sempre andando pelo céu, às vezes crescendo, às vezes diminuindo, às vezes se escondendo atrás de uma nuvem. Provocativa. Convidativa. Marota. Mas distante...
A distancia normal da Terra à Lua é de 384 ml quilômetros. E dizem os cientistas, astrônomos, astronautas e observadores que a Lua está se afastando da Terra a uma taxa de 3,8 centímetros por ano.
Eu sei disso tudo. Mesmo assim continuo olhando a Lua, fascinado, encantado, apaixonado.

- Quel est votre non ? Perguntei pela enésima vez, enquanto caminhávamos pela Rue Saint Honoré, ela olhando as vitrines das lojas de moda e às vezes entrando numa ou noutra loja, pra desespero meu.
Depois de um silencio muito usual, veio a resposta.
- Pensez-vous qu`un nom est important ? Tu ne preférè pas mes yeux ?
Silêncio por alguns minutos. Dois guardas fardados parados no meio da rua. Alegres, fumando.
- Je te l`ai déjà dit plusiers fois...

Silêncio.
Verdade.
Por que Lua se chama Lua, se tem tantas luas por aí nesse espaço infinito.
Luas de Saturno, lua de Marte...
Às vezes surge uma notícia falando que foi descoberta uma nova lua no planeta tal, a tantos milhões de anos-luz da Terra. Uma lua que os cientistas nem sabem se ainda existe.
Mas o que realmente importa é a nossa Lua. As outras são as outras, sem importância ou significado. Não falam comigo, não me olham, não me provocam. Apenas sei que existem.
A luz da Lua leva em média 1.3 segundos para chegar na Terra.
Nada, se pensarmos na eternidade.
Um século é nada, se pensarmos na eternidade.
Assim com a distância entre São Paulo e Paris é nada, comparada com o infinito.
Nove mil trezentos e noventa e seis quilômetros.

Nada.
Tento me enganar pensando que ela está momentaneamente escondida atrás de uma nuvem e que logo-logo vai aparecer. E que em 1,3 segundos vou ver a luz de seus olhos...

- Maintenant tu comprends pourquois Paris ?

** José Blanco. Publicitário, golfista, sonhador
Crédito - Pintura - André Tutak - Howell Gallery


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