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Brasil quase em guerra civil - Justo Piernes

18/07/2020




Legalidade e quase Guerra Civil

Por Justo Piernes**

(N.R. A Campanha da Legalidade foi um movimento liderado pelo então governador Leonel Brizola, para garantir a posse do vice-presidente João Goulart, seu cunhado, no cargo de Presidente, vago com a renúncia de Jânio Quadros)

Ano 1961. Uma tarde qualquer na redação do Clarin, em Buenos Aires, jornal onde há pouco eu tinha ingressado. Uma ordem: Piernes, tens que ir a Porto Alegre. Está por estourar uma revolução.

E me larguei. Justo no dia em que o avião que trazia João Goulart, dos Estados Unidos aterrissava no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, em meio a uma comoção mundial.

Tomei o último vôo da Cruzeiro com destino a Porto Alegre, cujo aeroporto estava a ponto de ser fechado, logo da sua ocupação militar. Não pude. Houve uma pane no motor esquerdo do avião que precisou voltar e fazer uma aterrissagem de emergência. O resto foi azarado. Voei a Montevidéu. Voei depois a Rivera para depois seguir por terra através de Santana do Livramento. 

Tampouco deu certo. Fazia uma semana que chovia sem parar. As estradas estavam obstruídas. As pontes carregadas pelas águas dos rios. Passei três dias vendo chover em Rivera até chegar a Livramento.

A providência me levou a conhecer um senhor chamado Paz, rico fazendeiro em Livramento e íntimo amigo de Goulart. Ele tinha um aviãozinho e precisava "chegar a qualquer preço a Porto Alegre". O preço foi umas horas de vôo numa manhã cheia de raios, nuvens baixas, ventos e chuvas. Era um inferno nesse avião anão, um Piper de um motor só. Deixamos a cabine vomitada até o teto, mas chegamos a Porto Alegre.

Aonde ir? A um jornal. Por quem perguntar? Por um velho amigo da crônica esportiva, o inesquecível Edson Pires. Edson me levou até a Folha da Tarde Esportiva, no prédio do Correio do Povo. Nunca mais me esquecerei dessa redação e de sua gente. Deram-me tudo, ao ponto de me darem uma sala, uma máquina de escrever e até uma chave, No dia do pagamento me fizeram entrar na fila para ver, se me pagavam, tanto tempo eu estava ali. Que redação maravilhosa.

Havia uma guerra civil em marcha. E comecei a trabalhar na rua. Os caminhões do Exército carregavam rapazes até uma praça em frente ao velho mercado de Porto Alegre. Mães chorando. Noivas gritando. Irmãs abraçando os rapazes. Sim, iam à guerra.

A Rádio da Legalidade - Porto Alegre já era chamada a Capital da Legalidade - transmitía as palavras inflamadas do governador do Rio Grande do Sul, Dom Leonel Brizola. Era um fanático da causa. Também surgiam os comunicados assinados pelo general Machado Lopes, comandante do III Exército, anunciando que apoiava o Rio Grande do Sul e que a luta seria levada até as últimas consequências. Foram dias de angústia e de espera. A guerra do Norte contra o Sul era inevitável e iminente.

Até passei um medo atroz naquela noite em que uma esquadrilha saiu de São Paulo com instruções para bombardear o Palácio Piratini. Brizola conversava com os correspondentes todas as noites enquanto sua mesa de despachos ia se enchendo de copos de vinho. Recordo aquela chamada do telefone e as categóricas palavras de Brizola: - Senhores. Vão bombardear o Palácio. Vocês são estrangeiros e não devem correr ô risco de morrer por uma causa que não lhes pertence. Podem ir embora.

Mas Abel Maure, um grande jornalista, correspondente da Reuters em Buenos Aires, disse a frase celebre: - A notícia está aqui. E os jornalistas devem estar junto da notícia. E os cinco que rodeávamos a mesa de Brizola - sempre com sua metralhadora dependurada no ombro - esperamos inertes, enquanto o governador recebia minuto a minuto o avance da esquadrilha que ia liquidar a todos nos.

Faltam 10 minutos, cinco, dois. um... 

Cessou o ruído de motores. As luzes do Palácio, que haviam sido apagadas, foram reacesas. Voltamos a tomar o copo de vinho nas mãos. Já não tremíamos. Evidente: tinha sido um aviso. Na próxima vez...

Não houve próxima vez. Estávamos comendo num dos lindos restaurantes do velho mercado, onde se misturavam o bom churrasco com o vinho e as moças da noite porto-alegrense, quando tomamos conhecimento de mensagem de Goulart desistindo da resistência do Sul e aceitando entrar no jogo pacífico e institucional. 

Voltaram os rapazes do frente. Mais mães, irmãs, noivas. Mais lágrimas. Agora de alegria.

Fui ver Brizola. Já não tinha a metralhadora. Estava uma fera. A bronca lhe saltava pelos olhos. - Jango está enganado. E vai pagar caro. Foi uma espécie de profecia e a última nota sobre a guerra que enviei a Clarín. Já era sexta-feira e pensava retornar no sábado.

Não pude. Os rapazes da Folha Esportiva e meu amigo Edson Pires não deixaram. No domingo jogavam Internacional e Grêmio no histórico Estádio Olímpico, Como iria embora sem ver o jogo, o Gre-Nal! Fui ver. E até tive a honra de um comentário sobre o jogo que publicaram assinado por mim e em espanhol.

Ninguém se lembrava da guerra. Nem dos recrutas. Nem dos do Norte. Nem dos do Sul. Estavam todos ali juntos, apinhados no estádio. A guerra já era história. O canhão tinha sido substituído por uma bola de futebol. As metralhadoras por 22 jogadores, um juiz e dois bandeirinhas.

Crónica publicada originalmente no Coojornal, de Porto Alegre
** Justo Piernes, mestre do jornalismo sul-americano. 
Crédito Imagem: Memorial da Democracia



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