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Poder é uma brisa fugaz - Hernan Maldonado

07/08/2020




O Poder é uma brisa fugaz

Por Hernán Maldonado**

Na entrada de um dos salões do luxuoso Bilmore Hotel em Miami, vi Carlos Andrés Pérez (CAP), ex-presidente da Venezuela, parado por longos minutos até que alguém o reconheceu e o convidou a sentar-se no que parecia ser a única poltrona no local lotado.

O palestrante, que já era esperado, seria o presidente do México, Vicente Fox, que participou do Fórum das Américas organizado pelo The Miami Herald. Alguns mariachis tentaram tornar a espera por Fox menos embaraçosa.

Cecília Matos, parceira do CAP nos últimos anos, chegou atrasada. Parecia exageradamente enfeitada com joias. Alguém conseguiu um lugar para ela ... entre jornalistas e fotógrafos.

Eu senti uma tristeza enorme. Um homem tão poderoso ontem, ele agora era um velho que precisava de uma cadeira para acomodar seus 79 anos.

Conheci o CAP pessoalmente em uma reunião social com correspondentes estrangeiros poucos dias depois de ele ter sido eleito para substituir o democrata-cristão Rafael Caldera.

Aos 52 anos, ele mostrava uma energia avassaladora, física e intelectualmente. Ele era um político da cabeça aos pés. A frase que ele disse me sacudiu - ... E é que a Venezuela precisa de um presidente como eu. O Dr. Caldera é um homem que não conhece a rua, que não bebe, não fuma, não ...

Como correspondente da UPI em Caracas, acompanhei de perto a campanha eleitoral do CAP. Fiquei impressionado com o desperdício de fundos. O governo da Caldera era bom. Sua melhor conquista foi fazer com que os guerrilheiros restantes de Castro deixassem as montanhas e trocassem balas por votos.

Ele propôs como candidato de seu partido o ministro do Interior, Lorenzo Fernández, um homem de boa índole, menos político que Caldera, chamado a continuar com a pacificação.

A Ação Democrática nomeou CAP, o homem que fez gemer os guerrilheiros comunistas como Ministro do Interior de Rómulo Betancourt. Enquanto Fernández fazia uma campanha sonolenta, seu rival parecia um homem de palavra fácil, atlético e vigoroso. Foi à luta entre a maçã e a faca. Era sabido quem venceria.

O slogan do impetuoso candidato da Adeco era - Esse homem sim anda, vai de frente e mostra a cara...

CAP era um político curtido em pugnas partidárias e no debate parlamentar. Ele percorreu o país inteiro deslumbrando as multidões. Os alpargatudos (militantes empobrecidos, mas fiéis adecos desde os tempos de Betancourt) jogavam as roupas no chão para que o CAP não molhasse os sapatos em dias de chuva.

Quando o ferrenho anticomunista de ontem subiu ao poder, a primeira coisa que fez foi restabelecer relações com a Cuba de Fidel Castro. Político pragmático, não teve receio de receber e abraçar em Puerto Ordaz o ditador nicaraguense Anastasio Tacho Somoza.

Mas depois ele foi um dos arquitetos da derrubada de Somoza. Ele abertamente deu dinheiro e armas aos sandinistas na Nicarágua. Seus amigos mais próximos pensaram (como os jornalistas credenciados ao Palácio de Miraflores mencionaram) que ergueriam um monumento a ele em Manágua após o triunfo da Revolução Sandinista.

O fato é que no dia da grande festa do triunfo sandinista diante de milhares de nicaragüenses empolgados, quem ocupou o lugar de honra foi Fidel Castro. CAP recebeu uma posição secundária.

Mas na Venezuela sua popularidade não diminuiu nem um pouco. Muito mais desde que ele nacionalizou a rica indústria do petróleo. O país viveu os efeitos dos preços de exportação quadruplicados.

Uma era de bem-estar econômico cobriu a Venezuela, especialmente para as classes médias, porque o alpargatudo continuou a sê-lo. Aqueles foram os anos em que os venezuelanos eram conhecidos em Miami como ?da-me dois?. Tudo parecia muito barato para eles.

Sobre os alpargatudos, lembro-me de uma vez que fomos à inauguração de um engenho de açúcar em Acarigua. Do aeroporto, milhares deles escoltaram nossos ônibus.

O local era cercado por uma extensa tela. Enormes tendas com assentos portáteis para cerca de 1.000 pessoas foram montadas. CAP e funcionários ocupariam uma grande plataforma. Milhares de homens, mulheres e crianças assistiam atrás da tela.

Pelos alto-falantes, eles nos convidaram para um galpão próximo. Eu nunca vi nada parecido. Cem garçons serviram uísque em copos de papelão com dezenas de garrafas que abriram rapidamente. As caixas de cerveja formavam uma montanha.

Voltando ao meu lugar, notei que enormes pedaços de carne estavam sendo assados verticalmente no que é chamado de rosbife, para a recepção gigantesca posterior.

Quando CAP chegou, a multidão lutou para entrar para aclama-lo e mal foi contida pela guarda presidencial. A situação ficou tensa. A cerimônia foi encurtada e CAP abreviou seu discurso e antes do brinde de praxe, ele correu em direção ao seu helicóptero que levantou voo no meio de uma poeira colossal.

Naquele exato momento a multidão soltou um grito monumental, derrubou a tela e invadiu o local pelos quatro lados. Era incrível ver como centenas retiravam os pedaços fumegantes de carne ou carregavam caixas de uísque, cerveja, cadeiras, mesas, etc. Foi o estouro das alpargatudos que também "formavam parte" da Venezuela "saudita" daquela época.

A corrupção atingiu níveis nunca antes vistos. O presidente da AD, Gonzalo Barrios, com dor, com profunda amargura, disse: - Na Venezuela você rouba, porque não há motivos para não roubar...

Mas o desastre também foi moral. O CAP, em plena gestão, proibiu jornalistas de acompanhá-lo em suas viagens ao exterior. Isso foi depois que se descobriu que, em uma viagem à Arábia Saudita, a embriaguez a bordo era tão grande que até as aeromoças foram desrespeitadas.

Mas CAP também não era um bom exemplo porque era público e notório que ele tinha casos extraconjugais.

O eleitorado cobrou a conta nas eleições seguintes. Seu sucessor, Luis Herrera Campíns, apelou para uma frase lapidar -  CAP ganhou a presidência prometendo que administraria a abundância com critério de escassez, mas o que fez foi administrá-la com falta de critério ...

A carreira política do CAP parecia terminada, mas não. Ele voltou em 1989, novamente sobre os ombros de uma multidão. Porém foi por pouco tempo porque a Venezuela dos "da-me dois" havia acabado. O ?Caracazo? apressou sua renúncia, em decorrência da alta dos preços dos combustíveis e do escândalo de recursos repassados ao governo nicaraguense de Violeta Chamorro sem a aprovação do Congresso.

Após sua renúncia, a força política do CAP na Venezuela acabou e teve de partir para o exílio perseguido por Hugo Chávez Frías.

Um dos últimos serviços que o CAP prestou a seu país foi alertar o público sobre o que aconteceria se Chávez fosse eleito presidente. Em entrevista concedida em 1998 a Marcel Granier, ele disse que, com Chávez no cargo, o governo cairia nas mãos de uma gangue criminosa que mergulharia a Venezuela na tragédia.

Ele alertou que a corrupção seria colossal, que o Judiciário se prostituiria, que a liberdade de expressão acabaria, a dissidência não seria tolerada, que as prisões ficariam lotadas de políticos e que os problemas econômicos do país piorariam.

Ele não viveu para ver o quão certo estava. Ele morreu no exílio há uma década, aos 88 anos.

** Hernan Maldonado jornalista
Crédito foto: Arquivo Noticioso



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