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Dois grandes do texto no Tribunal - Guillermo Piernes

28/03/2021




­Dois grandes do texto no Tribunal

Por Guillermo Piernes **

A sala do Tribunal lotada de leitores, jornalistas e escritores. Também políticos, historiadores, censores, militares, militantes, milicianos, estudantes de literatura, professores, artistas, sociólogos, policiais, médicos e um sacerdote. O silencio é tenso até o Juiz abrir a palavra.

Juiz - Peço aos assistentes que mantenham o silencio neste Tribunal cuja missão é determinar ou não a ampliação coercitiva dos horizontes dos leitores do Brasil pela via da boa literatura. Com a palavra a Procuradoria.

Procurador - Meritíssimo Senhor Juiz: Como procurador dos leitores que amam qualidade empenharei os meus esforços para que sejam afastados os divulgadores de conhecimento que depreciam talentos pelo fato de serem amigos, colegas, vizinhos ou patrícios sul-americanos.

Pelo fato de termos nascido ao sul do Equador não existe o pecado de depreciar ou ter preconceitos para quem está ao nosso lado. Muito lamento que não seja pecado porque esse desvio deveria de ser castigado exemplarmente, não digo com a cruel guilhotina, porem com um bom e rápido fuzilamento.

Advogado da Defesa -  Protesto!.. Peço que o Procurador retire a menção ao fuzilamento porque a pena de morte está proibida na América Latina pelas convenções internacionais as quais Brasil aderiu nos tempos quando tinha uma diplomacia admirada pelo mundo.

Juiz - Deferido

Procurador - Retiro Meritíssimo. Vou reconduzir a minha alegação porque os bons leitores do país precisam ser apoiados claramente em todo o território, tão vasto e onde se lê tão pouco.

Peço ao Tribunal que para expandir os horizontes dos leitores torne-se obrigatória em determinados setores a leitura de obras de dois extraordinários jornalistas-escritores brasileiros. Um é gaúcho de Caçapava do Sul e o outro fluminense de Macaé que estão no primeiro nível mundial nas suas áreas, o romance histórico e o tema político.

Eles ajudam com sua inteligência a recuperar ante o mundo o respeito intelectual perdido pelo país em anos recentes. Ao serem multiplicadas as leituras de seus trabalhos essa recuperação seria mais rápida.

Advogado de Defesa - Questão de ordem Vossa Excelência!... Parece que o colega está apoiando o bairrismo...

Juiz - Deferido. A Procuradoria que responda.

Procurador - Não apoio o bairrismo, de jeito nenhum. Buscamos ampliar as boas opções de leitura sem preconceitos. O bairrismo sempre provoca atrasos. Muitos leitores deixam de ler grandes textos universais pelo bairrismo muitas vezes inculcado por pessoas sem preparação para educar e que frequentemente leram menos de cinco livros na vida toda ou por outros que tem medo de trilhar novos caminhos fora das fronteiras de países.

Estou defendendo a qualidade e a excelência de onde vierem para que tenhamos mais subsídios para construir um futuro melhor.

Lembro ao Tribunal que as fronteiras nacionais nunca podem deter o pensamento sejam pensamentos de filósofos vietnamitas, químicos escoceses, futebolistas argentinos, engenheiros americanos, garçons franceses e muito menos os pensamentos de tão talentosos jornalistas-escritores como os mencionados. Por isso pedimos sermos atendidos na reivindicação para que sejam determinadas ações legais para que as suas obras sejam lidas por mais brasileiros.

Entendemos que ante esse desejado desdobramento que aumentaria a leitura em círculos importantes, e os leitores no Exterior se sentiriam mais curiosos para ter contato com os livros desses dois jornalistas-escritores cujos nomes revelarei no decorrer desta sessão.

Advogado de Defesa - Data Vênia Meritissimo. Nestes tempos os jornalistas são acusados por pessoas influentes de trabalhar apenas para estragar um projeto político. Também registro que grupos de cidadãos passaram a agredir ou amedrontar esses profissionais. Inclusive vários jornalistas foram convocados para depor na Policia Federal. Como os praticantes dessa profissão podem ser bons escritores?.

Juiz - Que a Procuradoria informe se algum jornalista no mundo chegou a ser um grande escritor e como explicaria esse processo.

Procurador - Perfeito Merítissimo. Gabriel Garcia Márques, Mario Vargas Llosa, Ernest Hemingway, George Orwell, Isabel Allende, Ken Follet, Mark Twain, Charles Dickens, Bob Woodward, George Bernard Shaw, vários deles ganhadores do Premio Nobel de Literatura. Todos eles repito todos são ou foram jornalistas- escritores, como os dois cidadãos brasileiros por mim mencionados.

Explico a seguir porque tantos escritores mundialmente consagrados são jornalistas. Um jornalista de bom nível tem um intenso treino diário para interpretar a realidade, nos diferentes campos. Sabe transmitir a emoção de um jogo de futebol, o pânico que provoca uma peste, o horror das guerras, as consequências de um psicopata com poder, indica o porquê de algumas concessões por parte de políticos, as razões históricas que indicam o rumo de grupos e nações e que moldam o caráter de líderes e de outras pessoas que traçam caminhos para milhões.

Com disciplina esse bom jornalista pode chegar a ser um bom escritor. Para ser um grande jornalista-escritor a nível mundial, somente com enorme talento, algo de sorte, trabalho duro, pesquisa e resilencia, além de muita paixão que permita sacrificar sua vida social, familiar. Essa formula acompanha acompanhou a todos acima citados e aos dois jornalistas-escritores brasileiros objeto de nossa intervenção. Reitero que nossa meta é que a leitura das suas obras torne-se obrigatória em vários círculos intelectuais, políticos y universitários.

Juiz -  Reconheço a importante à contribuição desse grupo para a evolução da Humanidade. Assim ordeno a Procuradoria que informe aos jurados os nomes desses jornalistas-escritores.

Procurador - Eles são José Antônio Severo e Carlos Marchi.

Juiz - Sintetize o que fizeram de importante como escritores.

Procurador: Severo e Marchi devem ser agregados a essa lista de grandes na arte e ciência de escrever importantes notícias e excelentes livros. Penso que o gaúcho Severo tem muitos pontos em comum com Ken Follet e o fluminense Marchi com Bob Woodward. Considero válido traçar esse paralelismo para o melhor entendimento do Tribunal e dos leitores amantes da qualidade.

Severo escreveu os livros A Invasão, A guerra dos cachorros, General Osorio, Cinzas do Sul, Rios de Sangue e Os senhores da guerra, estes dois últimos transformados em filmes de muito bom nível sobre episódios da sangrenta história da região meridional do continente, contados com minuciosos dados históricos pesquisados e mergulhos comoventes nas vidas dos personagens.

Encontro um grande paralelo com Ken Follet, esse celebrado jornalista-escritor nascido no País de Gales. Follet foi redator do South Wales Echo e do Evening Standard . Ele vendeu mais de 100 milhões de cópias de seus trabalhos como escritor. Quatro de seus livros alcançaram o primeiro lugar entre os best-sellers do New York Times: Triângulo, A Chave de Rebeca , O Vale dos 5 Leões e Mundo Sem Fim além do antológico Os Pilares da Terra, romance histórico na era medieval.

Marchi é autor de Fera de Macabu, limítrofe entre a reportagem a pesquisa histórica. Ele conta com um perfeito domínio do texto jornalístico, com toda a crueza e objetividade necessárias que torna fascinantes seus livros. Marchi também escreveu Todo aquele imenso mar de liberdade, biografia de um mestre da coluna política, Carlos Castello Branco e Senhor Republica sobre as aventuras e vida de um político honesto,Teotonio Vilela.

Também considero válido traçar um paralelo entre Marchi e Bob Woodward. O americano foi repórter investigativo e editor do Washington Post. Com o seu colega Carl Bernstein escreveu Todos os Homens do Presidente que decifrou o escândalo Watergate e levou a renuncia do presidente Richard Nixon e a um premio Pulitzer. O ultimo dos seus doze livros chama-se Raiva, que descreve os funestos desacertos da presidência de Donald Trump, seu negacionismo e a tensão desnecessária que provocou entre Estados Unidos e vários países tradicionalmente aliados e amigos.
Advogado de Defesa - Chamo ao Sr. Severo para que classifique os seus livros já que a Procuradoria estabelece um paralelo com as obras do Ken Follet.

(O grandalhão com cara bonachona sobe até o púlpito. Paletó e gravata folgados. As luzes enfatizam as fortes marcas de expressão do seu rosto. Balança suavemente a cabeça antes de olhar para o Juiz e os membros do Juri. Está sereno como se montasse pelo campo da sua infância seu cavalo Graxain ou pilotando um Cessna do aeroclube sulista num dia de céu de brigadeiro. Com uma mão segurando o próprio queixo e colocando a outra no púlpito como se segurasse uma imaginaria cuia de chimarrão, pausamente), responde:

Jose Antônio Severo -  Pois é... Acredito que meus livros possam ser classificados no gênero de romance histórico, que se nutre dos mesmos elementos do livro reportagem e do jornalismo literário. Este gênero atualmente está muito difundido pelo mundo, impulsionado pelo mercado de leitores que apreciam História, mas preferem uma narrativa que lhes proporcione a formação mental das imagens que comporiam os acontecimentos.

Por isto, o romance histórico moderno acrescenta à narrativa ficcional tantos elementos do jornalismo, ou seja, com informações precisas e com o contraponto de várias fontes.

Advogado de defesa -  Chamo o Sr. Marchi para explicar qual a motivação para escrever livros sobre política

(Ele caminha com passos seguros até o púlpito. Elegante no seu terno bem cortado e com uma chamativa gravata rubro negra permanece impávido perante o tensionado silencio que domina a sala. Marchi ajeita seus óculos e com um pequeno sorriso entre seus lábios olha destemidamente aos membros do Juri, ao juiz, as advogados e ao público. Com voz grave e fixando seus olhos no Advogado de Defesa) responde:

Carlos Marchi - Sempre perguntei por que as pessoas tem no Brasil uma relação tão ruim como a política. A política nunca fica distante das pessoas. Pedir um desconto a um comerciante e a barganha consequente é fazer política porque um dos lados procura que outro faça concessões. As pessoas não se dão conta que no seu dia a dia fazem política.

Acho coerente escrever livros sobre assuntos políticos. Também acho coerente seguir participando de debates eletrônicos sobre política, principalmente aquela que afeta os rumos do país e a sorte de boa parte do seu povo.

Juiz -  Nesta altura da sessão devo confessar que já li alguns dos livros escritos por Severo e Marchi. São excelentes escritores, sem dúvida. Por desconhecer os antecedentes, minha curiosidade é agora se foram tão bom jornalistas quando são como escritores. Que o Procurador responda.
Procurador -  As trajetórias de ambos no jornalismo são impressionantes. Detalho elas a seguir entendendo que ficará respondida a pergunta de Vossa Excelência.

Severo foi editor executivo da revista Exame, editor chefe de telejornais na Rede Globo e diretor geral de jornalismo da Band, alem de correspondente da Reuters. Trabalhou na Zero Hora, na Folha da Manhã, Correio do Povo, O Globo e foi um dos diretores da Gazeta Mercantil e participou da criação da Gazeta Mercantil Latino-Americana.

Marchi trabalhou como jornalista ou colunista nos principais meios de comunicação do Brasil como TV Globo, os jornais O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, foi presidente da Empresa Brasileira de Noticias (EBN), e foi o assessor de Tancredo Neves quando Brasil recuperava a democracia após muitos anos de regime militar.

Juiz - Recomendo aos integrantes deste Tribunal a leitura das obras de esses dois jornalistas-escritores. Antes de pensar num veredito, determino que seja chamada uma testemunha que proporcione mais informações sobre o caráter desses dois inegavelmente talentosos jornalistas-escritores.

Procurador -  Convoco a Guillermo Piernes, colega e amigo de ambos, com mais de 50 anos de amizade com Severo e de mais de 40 anos com Marchi.

Defesa - Protesto!... Peço que Piernes seja impedido de ser testemunha!... Ele é quem escreve este conto!.

Juiz - Indeferido. Entendo que como autor deste conto, ele pode apelar a tudo para que conste seu depoimento neste texto. Considero que, apesar da aparente coação sofrida pelo Tribunal, pela proximidade com ambos jornalistas-escritores o mencionado senhor pode dar um bom testemunho. Assim sendo determino que Piernes seja ouvido imediatamente.

Piernes - Grato Meritissimo. Eu tive o raro privilegio de ser colega e grande amigo de ambos, exemplares cidadãos do Brasil e do Mundo.

Acho que li todos os livros de Severo e Marchi, além de um monte de reportagens impecáveis dos dois. Tive longas e deliciosas conversas com Marchi em Brasília, Foz de Iguaçu e São Paulo, e com Severo em Buenos Aires, Rio de Janeiro, Mendoza, Belo Horizonte, Miami, Santiago, São Paulo, Montevideu e um monte de outros locais onde o destino nos levou.

Fui afortunado em trabalhar com eles como jornalista. Com Marchi fizemos a cobertura de muitas historias importantes, lado a lado. Participamos de um monte de entrevistas no Palacio Itamaraty com Presidentes, Reis e Ministros de vários países, e trocamos veementemente ideias em inúmeras ocasiões. Jogamos voleibol no Clube de Imprensa e chegamos a ser vizinhos do Lago Norte em Brasília. Como temos a mesma idade até celebramos nosso primeiro meio século de vida, em conjunto. Sempre brilhante, leal, corajoso, franco.

No caso de Severo, iniciamos juntos nossa carreira de correspondentes internacionais da agencia Reuters, em 1970, em Buenos Aires. Paciente e jeitoso, ele foi quem convenceu ao grande chefão Sir Patrick Cross a enviar este então jovem portenho ao Rio de Janeiro como correspondente. Depois tive outra maravilhosa experiência com Severo na Gazeta Mercantil. Ele como diretor parecia um mestre de sinfônica. Com toda humildade sabia extrair o melhor da cada individualidade e personalidade. 

Sob a batuta de Roberto Muller, o apoio total de Luiz Fernando Levy e fenômenos de competência como Claudio Lachini, Sidnei Basile, Luiz Recena e Severo esse jornal econômico chegou a ser o quarto no mundo. Eu fui apenas um colunista e acidentalmente um gerente num momento de impressionante crescimento da empresa. Eu tive sorte. O gênio sempre esteve com Severo. Ele sempre escapou quando começavam os elogios nem que fossem totalmente justificados. Ele pensa que se é para fazer deve ser bem feito. Assim de simples. Tem um radar para detectar o melhor de cada ser, de cada momento.

Uns quinze anos atrás, depois de apresentarmos apaixonados argumentos, Severo, Valerio Fabris e eu criamos o projeto da Gazeta Mercantil Latino-americana, com todo apoio do presidente da empresa. Esse tabloide circulou encartado em grandes periódicos de nove países latino-americanos, Espanha, Portugal e Estados Unidos. Ou seja, Brasil exportava um meio de informação com crédito. Uma proeza. Severo sempre fez de conta que tinha apenas pequena parte de responsabilidade no sucesso. Não, Severo foi motor e timão desse projeto. Realmente um homem inspirador, modesto e íntegro.

Juiz - A testemunha tem algo mais a declarar?

Piernes - Sim Meritíssimo. Sinto que ganhei a loteria porque convivi bastante com esses profissionais brilhantes que traduziram com as palavras certas e o enfoque apropriado, épocas importantes de historia do Brasil. Seus trabalhos ajudam a entender de onde e como viemos, quem somos e para onde vamos.

Resultou formidável conviver com pessoas muito mais inteligentes, preparadas e boas, mais valentes e humildes do que eu. Poderia falar durante horas das maravilhosas experiências humanas com eles. Somente agrego que ter uma leal e profunda amizade com seres geniais e generosos como eles é uma dádiva. Estarei agradecido até o meu último minuto neste mundo.

Juiz - Após verificar a informação em poder do Tribunal determino fazer uma longa pausa. Permitirá que todos nos possamos refletir sobre a petição da Procuradoria de buscar mecanismos legais para que mais leitores desfrutem do talento desses autores. Dou por encerrada esta sessão.

** Guillermo Piernes - Jornalista, ex-portavoz da OEA em Washington, escritor  
Pintura - Justiça de Alexander Moreira



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