Guillermo Piernes
GUILLERMO PIERNES

Home
Home

Autor do Site
Autor del Sitio

Crônicas
Crónicas

Contos
Cuentos

Artigos
Artículos

Poemas
Poemas

Escritores e Artistas
Escritores y Artistas

Índice
Índice

Links
Links

Correio dos Leitores
Correo de los Lectores

Guillermo Piernes
GUILLERMO PIERNES
Contos
Cuentos
Atletas de bengalas vibram em Paris - José Fonseca

04/04/2022 00:00




­
Atletas de bengalas vibram em Paris

Por José Fonseca Filho ** 
Apostei que vou vencer meus desafios nas disputas das olimpíadas de Paris. Isto é, nas paraolimpíadas, onde se esforçam bravamente os anciãos. Duvidar do feito seria um absurdo. Estou acostumado com atletismo. Nasci e morei numa ladeira enorme. Para subir incrível esforço, para descer suave escorrego.
Muito otimista fiz dez apostas, na base de mil euros cada, nas disputas de corridas e saltos. E outra na natação, onde se vencer ganharei um fim de semana no melhor hotel da Côte D´Azur, provando vinhos octogenários como eu. Me inscrevi e fui aceito em várias competições, despertando curiosidade geral. Quando chegava a um posto médico para exames já diziam: lá vem o brésilien se inscrever para outra competição.
 Me inscrevi e passei com louvor nos testes para disputa de vários tipos de corrida. Vou disputar os 500 metros rasos, com bengala, e mais 300 metros com obstáculos, em pista de areia. Neste caso, sem a bengala. Meu técnico quis solicitar o uso da bengala, mas eu disse ao juiz que não aceitaria. Acrescentei que não queria vantagens em função da idade. Mas, na verdade, a maioria das disputas de corridas serão com bengalas.
Tem uma que será a mais difícil. Nela vou estrear minha nova bengala, um modelo de alumínio X¨6R, recém lançado pela fábrica da qual sou garoto-propaganda. Isso mesmo, sou eu, aos setentinhas, o garoto-propaganda. Ou coroa-propaganda. Será uma corrida de 700 metros rasos, pista de areia com saltos sobre 3 barreiras consecutivas. Se eu vencer, a Nike já me propôs contrato de publicidade de US $ 5 milhões para uma nova sapatilha a ser lançada com meu nome esportivo.
Uma enfermeirinha mais do que simpática chamou-me para fazer a avaliação geral e rigorosa de meu estado físico. Depois de me apalpar bastante, embora eu achasse pouco, cientificamente, mostrou-se surpresa: "Uh lá lá o coroa está tinindo". E ainda apontou para mim, para que todos vissem. Manifestei a ela meus sinceros agradecimentos - até um pouco emocionado - e ela garantiu que eu receberia muitos troféus e medalhas.
- Prefiro as medalhas porque são mais leves para carregar, e eu posso aumentar minha coleção ? disse-lhe.
Diante dessa demonstração de humildade, a enfermeira levantou-se e veio me cumprimentar. Como? Dando-me um discreto, rápido beijinho na testa, a seguir entregando-me um cartão para guardar. Pensei que fosse o cartão de visitas com o telefone dela. Aos 80 a gente sonha mais ainda. Isso é o melhor dessa idade.
Só li no vestiário, escondido num cantinho. Fiquei grato pela preocupação dela comigo mas um pouquinho sem graça. Não era um cartão de visita, e sim uma receita com indicação de vários remédios que eu deveria tomar para disputar tantas provas, com gente bem mais jovem. Várias vitaminas e cereais. Escrito em vermelho tinha outro comprimido que eu já conhecia. Era um preventivo de enfarte.
Fiquei triste. Pensava que eu ainda poderia despertar algumas emoções nas mulheres, mesmo enfermeiras. Não apenas cuidados médicos. Ela possuía, realmente, todas as qualidades que uma verdadeira enfermeira deveria ter. Nessa noite dormi mal mas acordei esperançoso.
Só não consegui me inscrever para disputar provas de natação. Mas nisso eu sei que sou ruim. Não consigo virar a cabeça para lá e para cá enquanto vou dando as braçadas. Bater as pernas pior ainda, jogando água para todos os lados.
Ah sim, não escondo nada. No salto em altura também não consegui, fui reprovado para a prova. Segundo o fiscal técnico, eu poderia até conseguir pular, mas o problema é que eu poderia cair do outro lado meio desajeitado. Ou cair de bunda, como dizem os brasileiros.
Na verdade sofri uma séria crise de hérnia de disco há anos mas que até hoje me incomoda. Melhor não insistir mesmo. E desisti.
- Você é dos poucos atletas que tem juízo, disse-me le Docteur.
- Mercy beaucoup, respondi, pela delicadeza como por me chamar de atleta.
Ao longo de minha vida pratiquei vários esportes mas não cheguei a ser um abnegado por tais atividades. Não um verdadeiro aficcionado, digamos. Mesmo assim comecei a praticar o jiu jitsu ainda adolescente, mas também não consegui incluí-lo entre as minhas disputas nas Paraolimpíadas de Paris.
Me convenci também que há um certo preconceito contra os atletas de idade avançada. Não consegui entender porque não poderia fazer mais umas demonstrações de minhas atividades olímpicas. Perdão, paraolímpicas, quando se está além dos 70. Referia-me ao jiu jitsu.
- Essa disputa tem muitas quedas, e provoca sérios atritos com o piso - disse-me o Mestre Julien. Tive que escutar mais essa desculpa.
No meu curso de jiu jitsu, décadas atrás, quase fui expulso da academia. O meu professor não era alto, mas barrigudo e já de certa idade. Por tais características todos evitavam aplicar-lhe golpes fortes, nos treinos, para não derrubá-lo. A mim não disseram nada e eu estava entusiasmado com o aprendizado na aplicação de tapas e tabefes nos adversários.
Inocente, volta e meia aplicava tapas com força e o adversário balançava bastante antes de cair no chão. Cheguei a ficar conhecido como o derrubador de campeões, apesar de levar broncas dos instrutores. Respeite os gordos, era o que me diziam. Belo dia lá apareceu o famoso Mestre Costa, o bonzão da academia.
Fiquei empolgado em lutar com o Mestre, esqueci as orientações e o fato de ele possuir uma bela barriga. Guerra é guerra, lembrei, e com dois golpes derrubei o Mestre Costa no chão. Foram precisos dois colegas para levantá-lo.
Fiquei sem graça e o Mestre Costa nem se despediu de mim depois do treino. Se não me engano me mandou a la merde. Mas se bem me lembro, eu dei uma risadinha disfarçada. Ate hoje rio, na verdade.
Solicitei mais 3 inscrição nas Paraolimpíadas de Paris mas negaram praticamente sem justificativas. Eu teria um desempenho pelo menos razoável, e não tenho barriga para me atrapalhar nos golpes do boxe. Mas não deixaram.
Reconheço que pretender participar do maior número possível de disputas seria muita pretensão minha. Mas com certeza teria bom desempenho na maioria delas.
Os octogenários são modestos em relação às suas possibilidades mas possuem razoável espírito de competição. A equipe brasileira, que integro orgulhosamente, terá oportunidade de fazer belas exibições para os milhões de espectadores.
Mas a nossa batalha, relembrem o detalhe, será a Paraolimpíadas, para atletas que estão além do seu tempo, mas não se entregam.
Um dos fatores que estimularam minha participação foi a certeza de que estas serão as mais belas Olimpíadas e Paraolimpíadas de todos os tempos. E na cidade mais linda e formosa do mundo, Paris, de arquitetura extraordinária, centro de grandes acontecimentos na história da humanidade.
O público ficará acomodado ao longo de arquibancadas instaladas nas margens do rio Sena. Uma procissão fantástica de luzes e músicas deverá se consagrar como um dos mais belos espetáculos da história da humanidade, deslizando ao longo do rio.
E nós lá, os velhinhos septa, octa e nonagenários vibrando, firmes e fortes na turma dos paraolímpicos. Todos pilotando nossos jet skys amarelos para ganharmos mais destaque no conjunto de maravilhas da cerimônia de abertura. De jet sky ao longo do rio Sena, já imaginaram ?
Alguns dos colegas franceses emocionados, achando que jamais havia ocorrido uma festa como essa em Paris, a capital do mundo. E eu pilotando alegre meu jet sky com uma sessentinha toda linda, de biquini, no banco de trás. Mon Dieu!
Na equipe brasileira de natação feminina, pasmem, ou se quiserem vão assistir os treinamentos, estão atletas que nadam 8 mil metros praticamente sem descanso, e na faixa dos 80 aninhos. Imperdível, de toucas e óculos impecáveis. Se fôsse no rio Sena nadariam ida e volta.
Em meus contratos de publicidade estabeleci que receberei os valores combinados mesmo que não vença todas as disputas. Messi e Neymar não recebem todo o valor acertado, ainda que não façam gols e quando contundidos? Oitentinha mas não trouxa.
Já tenho vários contratos fechados. Principalmente com indústrias de vitaminas, produtos orgânicos, estimulantes, complexos vitamínicos, estimuladores sexuais, cremes e cirurgias pra nascer cabelo, silicone, paracetamol, transplantes variados e outros que não recordo.
Ah, lembrei: remédios para a perda de memória.
Vive la France, viva a saúde e a disposição de vida e alegria de pessoas de todas as idades. Brasileiros e brasileiras fiquem tranquilos. Traremos um monte de paramedalhas e paratroféus.
Mas ninguém, ninguém jamais vai esquecer do empenho e da alegria desses nossos irmãos fantásticos. Com bengala ou sem bengala. Com muito amor e muita força no coração.
Teremos tempo suficiente para desfrutarmos dos troféus e vantagens que ganharemos nas premiações. Um período inesquecícel.
Toujours, vive la vie!
** José Fonseca Filho, jornalista e pré-poeta
Imagem Viejo con bastón - Zimvoter



[ VOLTAR ]
Textos protegidos por Copyright - Guillermo Piernes 2022