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A Dama de Preto - Guillermo Piernes

06/01/2025 00:00




­A Dama de Preto

Guillermo Piernes **
 
O escritor sabia que ela voltaria. Insistência e pontualidade sempre foram as suas características do anjo piedoso que marca o fim da vida e que ele imaginava como uma dama de longo vestido preto. A morte não é dor ou agonia, que somente se padecem em vida. A morte é passagem para um descanso eterno ou nova grande aventura, acreditava.

O escritor considerava que era tolice ter medo da morte, quando vencemos na corrida pela vida em competição com outros oito milhões de espermatozoides. Fomos escolhidos para viver. A Dama da Preto teve todas as possibilidades a seu favor para nos levar antes de sairmos a luz. Ela chegará na hora certa para os que conheceram a vida. Obedeceria às instruções de um Deus, Deuses, Universo, Destino, Natureza? Outro tema no qual a Humanidade nunca chegou a lograr unanimidade, pensava o escritor. 

"Careço da experiência de morrer, pelo menos conscientemente. Tal vez já morri e renasci mil vezes e fui pássaro, flor, peixe ou rinoceronte, grão de arroz. Se alguém tiver a resposta certa que fale agora ou cale para sempre"  o escritor desafiava seus amigos quando discutiam o complicado assunto.

Mas ele convivia bem com a Dama de Preto. Tinha certa simpatia por ela e sabia como enrolar um pouco essa dama, reconhecendo que ela gostava do jogo.

Tinham passado várias décadas dessa relação. Até não ficar velho, a sua relação com a Dama de Preto tinha sido casual, superficial, inconsciente. Depois tudo mudou.

Na barriga da mãe quando os médicos já consideraram sacrificá-lo para proteger a vida da genitora, reclamou. Quando a Dama apareceu, ele berrou e ela entendeu como "quero viver". E ele nasceu, quando todas as justificativas científicas apoiariam a Dama de Preto no caso de levá-lo.

Viveu intensamente. Na infância desfrutando de todas as brincadeiras. Apanhou, caiu, sofreu arranhões sempre correndo atrás da diversão e das fantasias. A Dama de Preto não se atreveu a interromper esse ciclo ainda sabendo que alguns menos afortunados seriam levados por muito menos.

A Dama de Preto gostava do moleque cheio de projetos, que pareciam surpreende-la a cada visita. 

Assim ela nem ligou quando na adolescência em Buenos Aires o rapaz atlético foi operado para extrair amígdalas e teve uma hemorragia tão séria que acabou na UTI, onde os médicos quase decretaram o óbito. Ela abandonou a sala, com os médicos surpresos ao voltar o pulso do jovem inerte.

Quando passou pelo treinamento e serviu um ano como agente de polícia federal, para fugir do serviço militar obrigatório, ela também colaborou. Ao ser cercado por uma gangue violenta, viu-se perdido. Conseguiu extrair a pistola, adivinhar e apontar exatamente ao chefe da banda. O chefe da gangue recuou e assim fez o resto. A Dama de Preto a tudo assistiu, mas fechou os olhos para as possibilidades e deixou o local. 

Por amores entrou em brigas sérias, onde sua vida também esteve por um fio. Pela profissão de jornalista esteve exposto a bombardeios, metralhas, ameaças, persecuções, em vários dos quarenta países onde fez coberturas, mas nada sofreu. 

Numa das suas centenas de viagens aéreas, ao aterrizar num monomotor, numa clareira na Amazônia, esteve a centímetros de espatifar-se contra uma árvore. Mas não aconteceu. A Dama de Preto devia estar a sombra do gigantesco tronco, mas nada fez.

Esteve na lista de inimigos a serem eliminados da última ditadura argentina por escrever um incisivo artigo para uma revista europeia. No Rio de Janeiro, o escritor conheceu acidentalmente um poderoso do regime e foi tirado da lista por ele, quando a data para ser eliminado estava próxima.  

No seu passo pela diplomacia também atravessou ileso alguns momentos de alto risco que passaram a ser depois, alegres anedotas contadas, com um copo de vinho na mão, junto aos amigos. Um deles foi ter almoçado num restaurante em El Salvador ? em plena guerra civil - que foi explodido ao dia seguinte matando vários fregueses.   

Parecia que a Dama de Preto tinha uma deferência especial para o jovem destemido ou simplesmente maluco por viver com intensidade, a mente atenta e o coração aberto.

Após fazer uma aquaplanagem no interior de Minas Gerais, o seu carro bateu no gradil que separa as pistas. O carro deu quatro voltas no ar antes de se espatifar no asfalto. Tudo ficou destruído menos o lugar do piloto. Saiu somente com um golpe na coxa. A Dama de Preto, nesse episódio, optou para olhar as lindas flores a beira de estrada em vez de tomar as medidas apropriadas da sua função. 

Já com meio século de vida, numa visita ao cardiologista escutou que tinha que fazer exames profundos porque a taquicardia que aparecia ocasionalmente, indicava algo. Ele não tinha tempo para detalhes e seguiu com seus projetos que pareciam encantar a Dama de Preto.

Fez tudo que ditou seu coração ditador, seu minúsculo juízo, sua insaciável sede por viver cada emoção. Alguns golpes, uns poucos remorsos porque sempre buscou jogar limpo, mas nesses anos a Dama de Preto parecia estar de férias para ele. E essa Dama de Preto tinha lhe dado dicas que não devia teme-la. 

Pareceu ouvi-la lhe avisando que faltava pouco para levar o seu amado pai. O escritor estava em Brasília e dom Justo em Buenos Aires. Ligou para ele e durante uns 40 minutos descarregou em palavras todo o seu amor e agradecimento. O padre do escritor pronunciou os pensamentos mais lindos que um pai pode fazer sobre um filho. Três dias depois da longa e inesquecível conversa, dom Justo morreu de seu terceiro infarto, este último fulminante. Partiu sem agonia. 

Também sentiu esse aviso quando a doce Dona Delia, sua amorosa mãe partiu. O escritor a visitou na clínica onde ela teve seus últimos momentos de lucidez e o amor de sempre perante seu filho, que repetiu com lagrimas nos olhos quando a amava e lhe agradecia. Dona Delia foi levada pela Dama de Preto durante o sono, sem dor nem agonia.

A Dama de Preto certamente lhe avisou que seu primo-irmão Carlos estava perto de fechar seu ciclo. Sem muito meditar, largou tudo e voou de São Paulo a Mar del Plata para encontrar seu fraternal melhor amigo desde o berço até a idade adulta. Carlos, um reconhecido filósofo, estava com máscara de oxigênio na cama. Tirou a máscara para dizer que estava imensamente feliz pelo reencontro e que partiria tranquilo porque era hora de acabar com a agonia. Ao dia seguinte, a Dama de Preto levou Carlos.

As perdas doeram, mas o consolo de não ter poupado um sentimento ou uma palavra de carinho para os seus amados, deram consolo e alegria ao escritor para seguir adiante. Para sentir agradecimento pela forma que tinha atuado a Dama de Preto.

Num piscar de olhos, o escritor chegou aos 70. A Dama de Preto passou a visita-lo com certa frequência. Ele começou a entender. Quando o escritor sentia a sua presença, explicava seu projeto mais empolgante do momento. Buscava sempre executar seus projetos. E quando fracassava num projeto, em vez de lamentos, lançava um novo. A vida seguia, cada dia mais acelerada, plena, feliz. Os descendentes do escritor já eram mulheres, homens, cuidando da suas vidas. 

Uma tarde sentiu uma opressão forte no peito. Lhe pareceu enxergar a Dama. Disse-lhe: "É justo você querer me levar, mas queria concretizar o projeto de visitar aos meus poucos amigos do peito que restaram.". A Dama pareceu concordar. Ele cumpriu com a palavra e conseguiu viajar, abraçar a esse pequeno grupo de amigos extrair as palavras dos sentimentos mais profundos. 

E chegou o dia quando o escritor celebrou 80 anos. A Dama de Preto ficou perto dele. Ele sentiu que lhe acompanhava quase diariamente, nas lembranças de pessoas, de lugares, nos sonhos. O escritor não temia a morte, nem se entristecia pela sua proximidade. "Vivi intensamente em oito décadas diferentes, dois séculos diferentes, dois milênios diferentes e no meio das maiores transformações tecnológicas da história humana, foi um privilégio?, era a sua conclusão. Quando chegasse ao fim desta vida ficaria completamente apagado ou poderia começar outra grande aventura, pensava. ?Voltarei a ser pó de estrelas?", se perguntava. Porém, preferia seguir mais um pouco nesta vida e passou a buscar esse objetivo.
 
A cada dia ficavam menos testemunhas de cada momento importante da sua vida. Os melhores amigos, esses pelo qual até arriscaria tudo, já tinham partido. A maioria dos companheiros do esporte que assistiram a seus melhores gols, suas proezas no tênis, as grandes tacadas no golfe, tinham partido. Grande parte dos colegas jornalistas e diplomatas, com os quais compartilhou coberturas de golpes de estado, revoluções, guerras, conferencias, debates históricos, não mais existiam neste mundo.Quase todas as mulheres pelas quais sentiu amor, paixão, desejo somente seguiam belas, sensuais, carinhosas, apenas nas suas lembranças, nos seus sonhos. 

Uma tarde falou bem alto para a Dama de Preto ouvir: "Sei que você acha que agora sim, chegou a minha hora. Você está certa do ponto de vista das estatísticas, mas deixa te explicar algumas coisas...? " A Dama de Preto pareceu ficar atenta e escutou ao escritor dizer: "Não vou cometer suicídio. Não gostou nem matar insetos, plantas, animais e muito menos alguém com quem convivi durante oito décadas, ou seja, eu mesmo". 
O escritor, embalado perante o silencio da Dama de Preto, continuou: "Enumerei algumas formas para eu morrer. Por isso com o máximo respeito, posso falar?"
A Dama de Preto ficou imutável. O escritor enumerou:

"As minhas preferências para morrer, todas sem dor ou agonia, são as seguintes:
- Nos braços de um ser amado. 
- Bebendo um vinho e ouvindo boa música.
- Sonhando com meus seres queridos.
- Fulminado por um raio no meio da Natureza. 
- Após olhar as estrelas e agradecer pelo vivido."

A Dama de Preto ficou imóvel e sua boca da lábios escuros permaneceu fechada. Animado pelo silêncio, o escritor disse a ela "...Sei que você chegará inexorável e pontualmente...mas tenho mais um ponto interessante que você poderia atender. Estou escrevendo um livro de contos realmente lindo sobre você. Me deixa acabá-lo?...

Vaidosa, ela aceitou...O escritor seguiu escrevendo e escrevendo.

Mas um dia a missão da Dama de Preto devia ser cumprida. Esse dia chegou e ela cumpriu sua missão. Foi rápida. Abraço ele com uma intensidade e um sentimento que somente ela conhecia. Entre seus braços, ele fechou os olhos e deu o último suspiro. .  

** Guillermo Piernes - jornalista, diplomata, escritor 
*  Crédito imagem Anjo da Morte - Pinterest


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