Poemas
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30/06/2026 00:00

Amigo dos amigos
Silvia Caetano **
O desaparecimento de um amigo costuma ser dolorido. Seja intencional, um capricho, involuntário, -no caso de morte-, moderado ou praticado com suavidade, provoca imensos danos a quem ficou para trás. Como pode um amigo desaparecer?
Pode ocorrer de forma turbulenta, discreta, sutilmente anunciada ou até mesmo escamoteada no faz de conta que não aconteceu, mas sempre machuca o coração do abandonado. Deveria haver uma cerimônia de adeus para anunciar a intenção de partir. Alguns não têm a valentia para romper aberta e definitivamente. Depois de desvanecerem, costumam enviar mensagens, uma aqui, outra acolá, telefonarem no Natal ou, em
caso de falecimento de algum familiar, uma coroa de flores por um portador. Mas nunca aparecem.
Esse tipo de sumiço é uma maneira pusilânime de evitar o confronto, sem coragem para explicar a razão do afastamento. É uma forma covarde de conviver com os outros. Quem deserta vira fantasma, ou fantasma é quem fica aguardando que o amigo reapareça? Penosa é também a partida sem explicações de um parceiro amoroso, ou com desculpas esmolambadas, deixando assombrado o coração do abandonado.
Como pode um amigo sumir? A amizade é algo que desaparece? Como se dá essa evasão? O desaparecimento de amigos tornou-se tão frequente que, para designá-lo, os ingleses inventaram palavra ?ghosting?, neologismo que já entrou nos dicionários. A expressão designa o desaparecimento repentino como uma forma de encerrar um relacionamento interpessoal, assim sem mais nem menos. Dissimula-se o ato de romper, revelando falta de intrepidez. Pode-se romper por muitas razões, mas, sem explicações, é sempre uma forma cruel de se afastar.
Se houvesse um protocolo para o rompimento, para encerrar uma amizade ou uma relação amorosa, ao menos saberíamos por que o parceiro decidiu se afastar e deixaríamos de esperá-lo. Quando já passamos da metade da nossa existência, não é raro que alguns amigos tenham deixado de ser próximos por diferentes razões. Muitos porque mudaram de escola, de universidades, deixaram de frequentar os locais de encontro, de ter opiniões semelhantes ou de se interessar pelos mesmos assuntos.
Nessas situações não houve rupturas. Apenas tempo e distância, alguns desencontros ou descontentamentos. São ocorrências normais, não planejadas e que não chegam a caracterizar o término intencional de uma verdadeira amizade. O fim de uma verdadeira afeição é sempre dolorido, sobretudo para quem valoriza benquerenças, esforça-se para conservá-las e reconhece seu valor. Quando acabam, as pequenas ou grandes benquerenças, formam um cemitério de insubstituíveis. E sempre sofremos quando nos lembramos dos amigos que se foram.
E o que é a amizade? A amizade pertence ao domínio do implícito e do explícito. Pode ser declarada ou discreta. Para ser amigo é preciso ser presente, ainda que fisicamente distante. Ter semelhanças, generosidade, afeição, doação, admiração, rir pelos mesmos motivos. Assumir que o amigo quer seu bem e o defende dos inimigos. Quando isso não ocorre, é porque não havia bem-querer.
Seria muito agressivo dizer a uma pessoa que ela já não corresponde aos nossos padrões de querença, afeto, desempenho e de integridade. Ocorre, às vezes, que quando essa pessoa vai embora, também não nos diz nada disso. Talvez falte valentia, consideração ou nem sinta que tem essa obrigação. É possível amar quem não nos ama, desejar quem não nos quer, mas só somos amigos de quem é nosso amigo. Amigo é quem se comporta como amigo. Quando amigos meus procedem como se não fossem meus amigos, deixamos de ser amigos. O mesmo acontece como não me comporto como amigo deles.
** Silvia Caetano - jornalista brasileira que voltou ao Brasil após duas décadas em Portugal
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