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Resquicios do meu eu - (Poema) - Hyago S.C.

04/09/2026 00:00




Resquicios do meu eu 

Hyago S.C. **

A vida é um jogo de memórias.
Algumas vencem.
Outras, a gente enterra.
Há dias em que tudo faz sentido.
E outros
em que o sentido
simplesmente não vem

Hoje chove.
Estou numa mesa de bar.
Sozinho.
Como quase sempre.
Há um copo pela metade.
Um cigarro queimando devagar.
E uma cadeira vazia
que parece saber demais.

Ao redor,
pessoas conversam.
­Riem alto.
Bebem.
Fumam.
Se encostam.
São jovens.
Têm pressa de viver
aquilo que ainda não sabem
que um dia vão perder.

Eu também fui assim.
Já coube em madrugadas.
Já tive histórias para contar.
Já fui esperado em algum lugar.
Já fiz alguém perder o sono.

Hoje,
sou eu quem não dorme.
Acendo outro cigarro.
Talvez por vício.
Talvez por companhia.

A fumaça sobe
como sobem certas lembranças:
sem pedir licença,
sem dizer de onde vieram,
sem explicar por que voltaram.

E eu bebo.
Não para esquecer.
Esquecer seria misericórdia.
Bebo para silenciar
o barulho de algumas coisas
que só eu escuto.

Trabalho.
Volto para casa.
Durmo.
Acordo.
Trabalho.
Um looping infinito
de realidades aleatórias
que carregam meu nome,
mas já não carregam quem sou.
Ou quem fui.
Ou, talvez,
quem eu deveria ter sido.

Lá fora,
a chuva bate no vidro.
Aqui dentro,
alguma coisa também.
Mas ninguém percebe.
Meu coração aprendeu
uma habilidade terrível:
sangrar sem sujar a camisa.

Então sorrio.
Peço outra cerveja.
Apago o cigarro.
E observo aqueles jovens
fabricando as memórias
das quais um dia
também sentirão saudade.

É estranho.
Enquanto eles começam histórias,
eu coleciono resquícios.
Restos de enredos.
Afetos interrompidos.
Personagens sem despedida.
Capítulos que terminaram
antes de mim.

Talvez seja isso envelhecer:
descobrir que algumas mortes
não precisam de túmulo.
Há versões nossas
que simplesmente deixam de existir.
E ninguém comparece ao enterro.
Nem nós.

A cerveja esquenta.
O cigarro acaba.
A chuva continua.
E eu permaneço aqui.
Numa mesa para quatro,
ocupando apenas uma cadeira
e carregando fantasmas suficientes
para preencher as outras três.

Meu coração grita.
Mas aprendeu a gritar para dentro.
Talvez seja por isso
que ninguém venha.
Talvez seja por isso
que ninguém saiba.

Ou talvez
a pior solidão não seja
não ter alguém ao lado.
Seja olhar para dentro
e perceber, em silêncio,
que faz muito tempo
que eu também
não estou aqui.

** Hyago S.C é advogado
* Man at the bar - in.pinterest.com


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